Impressões finais: temporada de verão (2024)

Uma temporada de altos e baixos talvez seja a melhor definição para a summer season de 2024. Algumas obras fizeram jus ao hype, outras definharam no meio do caminho. Tem também aqueles que começaram “meh” e terminaram do mesmo jeito. Dito isso…

Nesta postagem vocês poderão conferir as nossas impressões finais de ATRI -My Dear Moments-, Gimai Seikatsu, Katsute Mahou Shoujo to Aku wa Tekitai shiteita., Make Heroine ga Oosugiru!, MAYONAKA PUNCH, na-nare hana-nare, Nige Jouzu no Wakagimi, Shoushimin Series, Suicide Squad ISEKAI e Tasogare Out Focus.

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ATRI -My Dear Moments- [Ana]

Mais do que submarinos ou qualquer outra coisa nesse anime, o que mais afundou mesmo foi a história. Devo admitir que quanto mais os episódios avançavam, mais eu me decepcionava, me fazendo perder a magia que havia sentido no início.

A premissa inicial era boa, e eu tenho certeza que o impacto seria mais positivo se o foco fosse apenas em integrar a Atri dentre os residentes da ilha, focando nas mudanças positivas em seu meio, como a restauração da escola e a vinda de outros alunos. Sendo assim, confesso que até mais ou menos a metade, embora o ritmo fosse um pouco inconsistente, não estava exatamente ruim. Sinceramente falando, a dinâmica entre Natsuki e Atri poderia ter ficado apenas na cumplicidade que um criou com o outro, mesmo resgatando as memórias de quando Atri salvou Natsuki quando criança, mas por algum motivo decidiram que essa deveria ser a história de um amor romântico. Só que Natsuki é um rapaz de 17 anos e Atri uma humanoide de aparência infantil. Não tem como não achar isso um tanto problemático.

Eu entendo que Atri nem sequer é humana, portanto o conceito de idade não se aplica muito a ela, mas se umas das premissas da obra é provar a todo custo que ela está muito próxima de um humano em questão de sentimentos pois tem um coração, acaba sendo contraditório quando até alguns comportamentos dela são infantilizados e ainda insistem nessa questão do romance.

Fora isso, a obra até tenta trabalhar outros personagens, mas eles não têm muita profundidade, o que torna difícil se sentir cativado de fato por eles. Sem contar o final, em que temos um timeskip de 70 anos, jogando trocentas informações na nossa cara em cinco minutos, sem nada fazer muito sentido. A história deveria ter acabado com a Atri sendo submersa, Natsuki seguindo a vida e é isto. Ao menos gostei que a Minamo, amiga do Natsuki, não acabou sendo sua segunda opção, já que tudo indicava que ela poderia ter um interesse romântico por ele, mas no fim ela só presenciou toda aquela palhaçada dele com a Atri.

No geral, ATRI: My Dearest Moments continua sendo visualmente bonito e não dá pra negar que a ideia era interessante, mas a execução deixou a desejar ao se apoiar em um relacionamento desconfortável, sem dar também um desenvolvimento mais interessante aos personagens, resultando em uma experiência muito menos envolvente do que eu imaginava.

7.0/10

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Gimai Seikatsu [Plinio]

Este não é um anime para todo mundo. Às vezes, sinto que Gimai Seikatsu exala um pouco de elitismo, ao comunicar com uma parcela bem específica do público. O público-alvo varia entre fãs de romance muito pacientes e os que assistem animes buscando casos insólitos. Em poucas palavras, o anime é um caso raro de produção que pode trabalhar com liberdade criativa.

Em Gimai Seikatsu, conhecemos Saki e Yuuta. Ela externaliza ousadia para parecer forte, mas esconde sua carência, enquanto ele age de forma racional, eventualmente sofrendo de angústia pela supressão de seus sentimentos. Apesar das personalidades complicadas, a relação é de codependência emocional. Ambos se conhecem a partir do casamento de seus pais, e o anime orbita o impacto que isso causa em sua família e a eventual aceitação do amor. O clímax aborda a ética na aceitação de se apaixonar por alguém que você recém reconhece como irmão, e como esta, digna manchete editorial, é uma decisão muito difícil.

Apesar do anime trazer uma impressão negativa pelo título e sua sinopse, ele é sério quando trabalha com os sentimentos dos personagens, e também parece autoconsciente quando o assunto é polêmica. Yuuta parece ser um homem que aprendeu com Fiuk, faltando apenas se autoproclamar homem desconstruído, e sempre pisando em casca de ovo ao conversar com mulheres. De longe, a Saki é quem mais movimenta a série. A pressão sob as mulheres e como lidar com uma tonelada de expectativas é o tema mais interessante na série. Apesar de toda a seriedade, o texto é cansativo e o ritmo é lento, sem rumar para lugar algum O que nos leva para o público-alvo interessado em aspectos técnicos únicos.

Sempre que há flashbacks, são utilizados efeitos sonoros de antigos projetores de cinema e efeitos visuais de cinema antigo. No geral, estas cenas são lindas e respondem a muitas dúvidas, já que o anime é majoritariamente do ponto de vista do Yuuta, e os flashbacks apresentam a visão da Saki. Algumas das trilhas sonoras de fundo lembram o gênero Lo-Fi, frequentemente associado a músicas de concentração e foco, abusando do efeito binaural. É possível que o anime possua o melhor álbum de trilha sonora da temporada. Além disso, os efeitos sonoros ambientes são muito úteis em transmitir o clima das cenas, com o som dos talheres batendo no prato, para representar um ambiente familiar inóspito nos episódios iniciais, até a mudança para uma casa com sons mais agradáveis nos episódios finais.

Ainda assim, para um espectador semanal, a pergunta era sempre a mesma a cada episódio: onde esse anime quer chegar? Foram poucos episódios para construir uma personalidade para o Yuuta, criando uma crise de identidade entre o verniz sério do anime e o protagonista genérico de romance. Ainda assim, eu não me estressei tanto com os pontos negativos que citei, já que fui impactado pelo lado criativo da produção, e acredito que possa agradar um público bem específico.

6.0/10

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Katsute Mahou Shoujo to Aku wa Tekitai shiteita. [Ana]

Eu ainda estou tentando processar o que eu assisti. Não sou ingênua a ponto de achar que não poderia sair algo esquisito desse anime, mas ainda consegui me surpreender.

Assim como a duração dos episódios, também não vou me estender muito. A interação entre os protagonistas Byakuya e Mira foi até que bacana e uma das melhores partes do anime. Vejo que a autora tentou adicionar outros personagens relevantes, por exemplo os demais integrantes do Império do Mal, mas que não foram lá muito aproveitados. E o resto, bom… O resto é péssimo. O “anjo” da Byakuya, não é demoníaco como o Kyuubey — embora seja uma referência clara a ele —, na verdade ele é pior, sendo abusivo e se aproveitando da ingenuidade da garota, fazendo-a vestir roupas sexualizadas. Mira, que é o Tenente do Mal, não é babaca como ele. Fora isso temos também outra mahou shoujo, Hibana, em uma tentativa de dar a Byakuya algum tipo de amizade, mas a garota só sabe se comunicar com a palavra “fuck” e não consegue ter uma interação social decente. Se tudo isso era pra ser cômico, não sei se é o meu senso de humor ou de quem pensou nisso que está bem desajustado.

O visual do anime é bonitinho, mas infelizmente ele engana. Não sei como a autora sustentaria a história apenas com o plot dos protagonistas, já que vemos pouco avanço em um possível romance entre os dois, só que tudo que circula o casal é tão bizarro, que não dá pra ter muito encanto por nada aqui, o que é uma pena.

6.0/10

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Make Heroine ga Oosugiru! [Plinio]

Tal qual um réu confesso, é fácil dizer que eu não me arrependo das coisas que disse nas primeiras impressões, mas com certeza eu peguei pesado com Makeine. As expectativas eram baixas, porém eu não me atentei ao próprio título do anime, já que não existem “desentendimentos” em uma confissão de amor rejeitada, e este é um dos clichês mais comuns de comédia romântica e fator principal para afastar os que não gostam do gênero.

Make Heroine ga Oosugiru! é uma obra interessante, onde a pedra angular dos personagens é a falta de sucesso no amor. A obra começa com Nukumizu questionando-se sobre o amor no ensino médio, e como a duração e o esforço aplicado não compensam os resultados obtidos. Eventualmente, ele conhece três meninas que estão sob iminência de ter seus corações arrasados, e como um bom observador, deverá obter sua resposta após acompanhar a jornada delas. As garotas são o alicerce do anime. Mesmo com a rejeição no amor, o carisma e humor das personagens te alegra, e empurra para o lado delas, fazendo o espectador tornar-se um aliado da causa. Os arcos são utilizados para valorizar cada personagem, mostrando o processo de superação da rejeição e seu jeito de lidar com a situação. A trama é orgânica e interessante, mas Nukumizu atrapalha o processo, agindo como protagonista da situação e tomando a decisão por elas. No fim, sua presença serve para mostrar quem é o verdadeiro perdedor.

É preciso enfatizar que Makeine é uma adaptação de light novel, e que é comum a utilização de arcos narrativos, tornando fácil a identificação de quando termina um volume e começa outro. O melhor de Makeine é que os conflitos permeiam os episódios, fazendo com que o conteúdo de um arco seja relevante para o outro. Isso é incomum em comédias românticas, onde normalmente são segmentadas e inertes aos outros arcos de personagem.

No geral, o anime é muito bonito e divertido. Komari, a garota ruiva da série, é minha personagem favorita. Ela é uma pessoa que consegue lutar contra as próprias limitações, mesmo que todos acreditem que ela não é capaz de conseguir e mesmo que o embate não traga frutos, no fim não lhe resta arrependimentos. Acredito que a solução para Nukumizu, noutro caso, é sair da inércia para alcançar o protagonismo que deseja, mas só acompanharemos este desfecho em uma possível segunda temporada. Adoro como Makeine aborda estes temas, abandonando tendências de mercado para criar comédias de verdade, sobre situações reais, nos fazendo rir de desgraças que podem muito bem acontecer com a gente.

7.0/10

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MAYONAKA PUNCH [Mari]

MAYONAKA PUNCH (MayoPan) segue a história de um grupo de garotas que resolve criar um canal no YouTube e que busca atingir 1 milhão de inscritos. Não é uma premissa que por si só chame muita a atenção, né? Pois bem, o escritor pensou a mesma coisa e decidiu que o canal seria estrelado por quatro vampiras prestes a serem despejadas da mansão que moram a não ser que cumpram a meta estabelecida. Ah, e que uma das vampiras seria uma lésbica obcecada por uma (ex-?)YouNewTuber que passou por um processo brutal de cancelamento e que viria a se tornar a editora-chefe do canal. Agora sim, com uma proposta insana o suficiente, podemos convidar Honma Shuu, diretor de Paripi Koumei, e lançar o anime mais divertido da temporada.

Apesar de parecer a coisa mais nonsense do universo, MayoPan é surpreendentemente fundamentado no sentido de que ele sabe exatamente do que está falando quando se diz respeito ao universo de criadores de conteúdo para o YouNewTube e a cultura da internet. Do processo de criação dos vídeos, questões financeiras, reações do público e o impacto que esse tipo de trabalho pode ter na saúde mental de uma pessoa, é tudo bastante realista — claro, tirando a parte que Live, Fuu, Ichiko, Tokage e Yuki se alimentam de sangue e voam de verdade.

Eu gostei muito de acompanhar a dinâmica dessas cinco personagens que, ao lado de Masaki, não me deixaram ficar entediada por um segundo sequer. É uma pena que nem todas elas tenham tido um arco próprio — os episódios que trataram dos backgrounds da Fuu e da Ichiko foram ótimos, por exemplo. Também vimos um pouco do passado da Live e da Yuki, mas não o suficiente. Ah, e a Tokage foi esquecida no churrasco… Ou, melhor dizendo, no pachinko.

MayoPan termina com algumas pontas soltas, o que é frustrante se tratando de um anime original. Quando isso acontece com uma obra adaptada nós podemos simplesmente ir atrás do mangá, jogo ou livro e saciar a nossa curiosidade. Aqui não temos o que fazer a não ser rezar para que o estúdio P.A. Works esteja planejando uma continuação, mesmo que eles não façam isso com frequência. Honestamente eu acho que uma segunda temporada é improvável e até mesmo desnecessária, mas um filme ou OVA seria ótimo para concluir a jornada do MayoPan.

Por favor, P.A. Works, não deixe a Live morrer sem dar uma mordida no pescoço da namoradinha dela.

8.0/10

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na-nare hana-nare [Lucy]

Falar de na-nare hana-nare é um pouco engraçado, considerando as múltiplas abordagens que o anime tenta entregar. Como história de superação, é decente. Como esportivo, está bem longe de ser competente. Como iyashikei? Dá pro gasto!

Convenhamos: quase ninguém está esperando um enredo épico ao assistir um anime de meninas fofas fazendo coisas fofas, mas há muito que pode ser melhorado em Narenare. Entretanto, é bom lembrar que existem diversos casos de obras que apesar de suas falhas e tropeços, conseguem ainda se manter acima da média de acordo com outras métricas. Acredito que seja o caso das nossas líderes de torcida da temporada, cujo enredo tem um caminho nítido a ser trilhado: superar as limitações pessoais, unir-se como um grupo, explorar o amor pelo esporte. Mas de um jeito bem tipicamente P.A. Works, o drama para que todos esses itens sejam cumpridos acaba pesando um pouco demais a mão. Temos personagens com dificuldade de mobilidade fazendo danças dramáticas na chuva, revelações de traição com gente fugindo depois, e um punhado de conveniências e coincidências forçadas demais para serem minimamente críveis. Porém, o importante é que tudo isso é feito com o coração no lugar certo, com uma vibração que contagia, e é assim que na-nare hana-nare consegue sobreviver em meio às tempestades que causa para si mesmo…. Certo?

Até certo ponto. É uma pena que essa empolgação perca o fôlego na reta final, que julgo ser uma parte muito mais fraca do anime. A primeira metade foi bastante divertida, enquanto as meninas estavam gradualmente encontrando seu foco e expandindo suas atividades. Acredito que se tivessem mantido essa abordagem episódica, o produto final teria sido melhor — ainda mais considerando que antes mesmo de introduzir o conflito principal, nossas protagonistas já tinham questões pessoais o suficiente para lidar! A introdução de mais um problema acima de todos os outros falhou em me fisgar. Não consegui me importar muito com a nova antagonista (se é que posso chamá-la assim), e o exagero dramático que mencionei acima começou a me incomodar a ponto de que não consegui mais relevar algumas faltas.

Pelo menos enquanto estava tudo vindo abaixo, ainda conseguia ficar admirando a animação e os cenários, que se mantiveram acima da média até o fim. O que o estúdio pecou no roteiro, acertou no visual coloridíssimo — minha única ressalva é que talvez seja necessário abaixar o brilho do seu monitor para assistir o anime…

Se essa estética, ou algum ponto central da temática (ou até a presença da nossa pequena brasileira) te chame a atenção, acredito que ainda valha a pena dar uma chance para na-nare hana-nare. Sinto que é verdadeiramente lamentável o quanto me desinteressei pelo anime, porque estava gostando muito dos primeiros episódios. Por algumas poucas semanas, foi um momento ao fim dos meus domingos onde eu podia relaxar antes de voltar para a minha rotina. Mas não dá pra vencer todas, né?

6.0/10

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Nige Jouzu no Wakagimi [Mari]

Por ser de autoria de um mangaká já consagrado na indústria — Matsui Yuusei, conhecido principalmente pelo seu trabalho em Assassination Classroom — a expectativa para Nige Jouzu no Wakagimi era alta. Neste sentido, fico feliz que o estúdio responsável pela adaptação da obra tenha sido o CloverWorks, que vem consistentemente entregando ótimos trabalhos. Nigewaka é um espetáculo visual que consegue mesclar bem os estilos de animação 2D e 3D, embora na reta final do anime os cortes tenham ficado um pouco menos polidos.

Da mesma forma que a equipe se divertiu com a mistura de estilos, Matsui brincou com os conceitos de realismo e fantasia no decorrer da história. Apesar de parecer uma série que tem os pés no chão, o autor concede habilidades sobre-humanas para alguns de seus personagens, escalando as tensões que existem entre o grupo do protagonista e seus aliados e os inimigos que eles têm de enfrentar, o que torna o enredo mais interessante. Essa “brincadeira” de Matsui é uma característica dele, que anteriormente já havia partido de uma premissa absurda em AssClass (ter um alienígena que ameaça destruir a Terra como professor e uma turma de adolescentes que queria matá-lo) para tecer críticas reais ao modelo educacional japonês, por exemplo.

Apesar de seguir uma estrutura narrativa comum  — “A Jornada do Herói” —, Nigewaka esbanja criatividade. O protagonista é o total oposto do que você esperaria de alguém que planeja vingar a morte de sua família, com uma personalidade que passa longe, mas muito longe de ser “edgy”, como personagens principais desse tipo de história costumam ser. Além disso, as táticas de guerra implementadas por Tokiyuki e companhia são inusitadas e dificilmente funcionariam se não fossem executadas por aquele grupo específico de pessoas. E, claro, não podemos esquecer do humor — Matsui é mestre em nos tirar boas risadas.

Nige Jouzu no Wakagimi é definitivamente um dos animes dos quais sentirei saudades dessa temporada. Se o objetivo era me deixar tentada a ler o mangá, pois saibam que ele foi atingido.

8.5/10

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Shoushimin Series [Lucy]

Shoushimin Series causou um impacto profundo em mim. Em diversos momentos, me inspirou a reconsiderar meu ponto de vista e analisar por outros ângulos o que foi apresentado. Me fez ter debates extensos comigo mesma sobre o que é arte e qual é o seu valor… Se é que é possível atribuir um valor à arte. A arte precisa de um motivo para existir? Arte não é funcionalismo. Arte pode — e deve — existir por si só, sem dever nada a ninguém.

Mas mesmo assim, p*ta que pariu, eu não consigo encontrar um motivo pra esse anime existir do jeito que ele é.

Tais questionamentos surgiram após eu passar cerca de doze longos minutos da minha efêmera vida assistindo os personagens debatendo como que um deles pode ter feito chocolate quente da maneira mais preguiçosa possível. Juro por Deus, ou pelo que você preferir que eu jure, meio episódio inteiro gasto nesse lero-lero. Animado belissimamente, lindo demais, provavelmente rios de dinheiro fluíram com cada gota daquele Nescau japonês requentado no micro-ondas. Uma coisa delicadíssima no visual, mas com um texto chato pra p*rra.

E olha que eu amo coisas contemplativas! Eu sou a pretensiosidade em pessoa! E se você faz parte do público alvo de Shoushimin, eu te peço meu perdão mais sincero, mas como dizem os jovens contemporâneos, eu não consegui tankar. Eu juro que exerci toda a minha boa vontade. Eu até queria fazer um review decente e dentro do tom, mas quanto mais eu pensava sobre o anime, mais doida eu ia ficando. Eu entendo que o ponto da obra era trazer um ângulo misterioso ao mundano, que a graça da coisa era tratar os momentos mais simples da vida como enigmas complexos porque o protagonista é viciado em resolver situações, a ponto de que chegou a supostamente atrapalhar a vida dele. A princípio estava crente que o problema foi comigo e, até certo ponto, com as minhas expectativas. Até agora mantenho um pouco essa opinião, mas então lembro também que o enredo decidiu meter uns plot twists, mudou completamente o tom da história, e perdeu de vez os últimos resquícios de boa-fé que eu nem sabia mais que tinha nesse processo.

E o pior é que ao fim da jornada, eu acredito que era melhor ter ficado no nada-acontece-feijoada de antes! Pelo menos era algo coerente. Mas o autor optou por trazer situações mais arriscadas, e o tal plot twist é simplesmente hilário no quão inverossímil ele é. Funciona no sentido de que ele de fato surpreende, mas é tão forçado em certos pontos que vira piada. Reconheço que é executado bem o suficiente para render um episódio inteiro só de literalmente um único diálogo sem torná-lo maçante; ótimo mérito da direção. Graças a esse desenvolvimento, o status quo e o relacionamento entre os protagonistas é praticamente zerado e apagado, propiciando um novo ponto de partida para a já anunciada segunda temporada. Enquanto tematicamente esse é um desenvolvimento interessante, eu não poderia me importar menos com o que vai acontecer com esses pequenos miseráveis.

Logo, apenas desejo boa sorte a quem fica, e meus parabéns novamente ao estúdio Lapin Track pelo visual cinematográfico e impecável. Se sair alguma notícia sobre lavagem de dinheiro nos próximos meses, com certeza será a gargalhada mais exuberante que darei em um bom tempo.

(Nota após revisão: Perceba como nesta resenha eu falei, falei, e não disse absolutamente nada. Não foi intencional, mas é uma boa representação de um episódio padrão de Shoushimin Series. Infelizmente, não estou formatada em widescreen, mas de resto, estamos quase lá.)

5.0/10

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Suicide Squad ISEKAI [Mari]

Quem acompanha algum tipo de esporte coletivo — especialmente futebol — já deve ter se deparado com uma situação em que o jogador pensa numa ótima jogada, mas que na hora de dar o passe ele manda a bola pra lua ou o companheiro de equipe não entende muito bem o que ele queria fazer. Nesses momentos os narradores e comentaristas frequentemente pontuam que a ideia era boa, mas que a execução não ajudou. Pois bem… Essa também é a definição perfeita para Suicide Squad ISEKAI.

Não dá pra dizer que reunir o esquadrão mais lelé-da-cuca do universo da DC Comics e apimentá-lo com um conceito de possibilidades infinitas como o de isekai era uma má ideia. Vejam bem, a premissa de ir explorar um novo mundo em busca de recursos não é nova, mas pode render discussões interessantes. O problema é que esse objetivo nunca sai do papel, pois a missão do Esquadrão Suicida é jogada pela janela assim que eles atravessam o portal. Nesse novo mundo eles se envolvem em um conflito com a família real e outros criminosos que também haviam sido transportados pela A.R.G.U.S. para lá. Muito tempo de tela é dedicado às cenas de ação — talvez porque essa seja a única coisa que o anime tem a oferecer — e o resto é um grande “nada acontece, feijoada”. Como eu disse nas minhas primeiras impressões, falta substância à série.

Outra coisa que me irritou um pouco e que já é característico da DC quando se trata de animações (tanto as americanas quanto as japonesas) é que Suicide Squad ISEKAI não tem final. Ele apresenta uma resolução xoxa e capenga ao conflito que se arrastou ao longo dos dez episódios para logo em seguida dar indícios fortíssimos de que haverá uma segunda temporada, o que leva o espectador a se perguntar: por quê? Bem, a resposta é que a DC tem dinheiro infinito.

Suicide Squad ISEKAI não é uma boa introdução a Harley Quinn, Clayface, Peacemaker, King Shark e Deadshot. Se você não tiver um apego anterior aos personagens, não recomendo ver o anime. Caso você já tenha algum conhecimento prévio, eu também não recomendo, mas pelo menos você vai se divertir com a patifaria e o caos intrínsecos ao Esquadrão Suicida.

6.0/10

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Tasogare Out Focus [Lucy]

Ironicamente, tratando-se de uma série tão focada em cinema, minha recomendação para Tasogare Out Focus é assistir cada arco como se fosse um filme. Foi o que eu fiz, acompanhando os episódios em “blocos” de acordo com os diferentes volumes adaptados, e acho que consegui ter uma ótima experiência com o anime a partir desse ponto de vista. Se você tem o hábito de ler mangás BL, sabe já muito bem como funcionam esses romances “bite-sized” — o ritmo dos desenvolvimentos é um pouco mais acelerado, o que também beneficia esse formato que a série acabou adquirindo. Logo, não apenas recomendo o anime, como também aponto que é necessário ter uma ótica ligeiramente adaptada para aproveitá-lo melhor.

E sim, recomendo Tasogare Out Focus com tranquilidade para qualquer fã de romance! É despretensioso e divertido, com personagens que — considerando o pouco tempo disponível — são até bem trabalhados durante suas respectivas jornadas. Com três casais protagonistas, não deve surpreender que cada parte tenha um tom diferente da anterior, e é interessante acompanhar e comparar as mudanças entre as histórias. Acredito, inclusive, que essa variedade de dinâmicas entre o elenco e os casais é o maior atrativo do anime. Entretanto, há pouca interação entre eles, e esse é um ponto que eu gostaria que fosse mais explorado. Sinto que o pequeno universo do clube de cinema ainda tem muito mais a oferecer; a autora poderia facilmente fazer mais meia dúzia de spin-offs,se quisesse.

Inclusive, é um pouco intrigante (de um jeito positivo) ver também a variedade de tratamentos que a série faz de tropos comuns em BL, especialmente se tratando de sexualidade em si — vamos do cara que achava até ontem que era hétero, a um casal que não toca nesse tópico em momento algum, a um protagonista abertamente gay que declara suas ambições românticas logo de cara. Talvez seja um pouco de viagem da minha parte, mas considerando a linha do tempo das publicações, acredito que acidentalmente foi uma representação muito boa da evolução recente da abordagem sobre o assunto no gênero Boys Love. Isso é mais um adendo meu do que um tema verdadeiramente central, mas não deixa de ser legal de perceber.

A animação, pelo outro lado, não é digna de muita nota. Temos várias escolhas da direção que são para claramente minimizar o tempo e dinheiro gasto em cada episódio, mas ainda funcionam dentro da narrativa. O destaque vai para as cenas de maior intimidade entre os personagens, que me surpreenderam no quão extensivamente foram adaptadas; não chegam a ser explícitas, é claro, mas não foram também vítimas de censuras terríveis (até hoje fico sem entender direito os corpos brilhantes de Love Stage!, por exemplo). Por outro lado, também é onde ficam mais evidentes essas questões da produção… Mas ao menos não destoam a ponto de atrapalhar a experiência!

Em resumo, Tasogare Out Focus nem fede nem cheira; é exatamente o tipo de anime onde você ganha o que é proposto na sinopse, sem tirar nem pôr. Não é nada revolucionário, mas se você está a fim de assistir um Boys Love ou uma comédia romântica curtinha, poderia com certeza escolher séries muito piores. É uma ambientação simples mas confortável. Conseguiria assistir tranquilamente mais duas ou três temporadas só de meninos se apaixonando por cinema e uns pelos outros.

6.5/10

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