Primeiras impressões: temporada de primavera (2025)

Estamos começando a segunda temporada de animes de 2025 com o pé direito (ou pelo menos é isso que as estreias indicam)! Agora nos resta aguardar para ver se as obras conseguirão manter a mesma qualidade ou não…

Nesta postagem vocês poderão conferir as nossas primeiras impressões de Anne Shirley, APOCALYPSE HOTEL, Hibi wa Sugiredo Meshi Umashi, KOWLOON GENERIC ROMANCE, Lazarus, mono, Rock wa Lady no Tashinami deshite, Summer Pockets, Uma Musume: Cinderella Gray, WITCH WATCH e ZatsuTabi -That’s Journey-.

Anne Shirley [Ana]

Não é a primeira vez que o livro Anne of Green Gables é adaptado, havendo outras versões em anime, além de filmes e séries ocidentais para a TV. Aparentemente, é uma história da qual as pessoas não se cansam, mas que, até então, eu não conhecia. Fiquei bastante curiosa para explorar esse universo, e devo dizer que, logo de início, tive uma experiência muito satisfatória. Espero continuar aproveitando o que a obra tem a oferecer.

Um dos principais destaques é o quão bonito o anime é. Confesso que não conhecia outras produções do The Answer Studio, mas gostei bastante do trabalho apresentado até agora pela equipe responsável. Os visuais são vibrantes, a animação é fluida, os personagens têm expressões marcantes, e o design é bastante agradável. Além disso, a adaptação consegue captar a atmosfera dos anos 1890, época em que a história se passa.

Outro ponto forte é a própria protagonista: Anne é uma personagem muito interessante e cativante, por sempre expressar seus sentimentos e ideias com sinceridade. Órfã aos 11 anos, é provável que tenha desenvolvido sua imaginação como um mecanismo para lidar com as situações da vida. No momento em que a história nos apresenta, ela é enviada por engano à fazenda de Green Gables, pertencente aos irmãos Marilla e Matthew, que pretendiam adotar um menino. Enquanto Matthew não se importaria em ficar com ela, Marilla é mais rígida e pensa em devolvê-la. No entanto, ao perceber que Anne seria enviada a um lugar pior, decide acolhê-la. Ainda que mantenha sua postura severa, Marilla aos poucos vai sendo tocada pela menina, mesmo que lidar com tanta espontaneidade e sua mente imaginativa continue sendo um desafio.

Assim, Anne Shirley me trouxe uma experiência bastante positiva e sinto que vai ser um anime leve e divertido de acompanhar. A adaptação atual nos oferece uma experiência visual encantadora, e a protagonista conquista com sua sensibilidade, imaginação e autenticidade. Mal posso esperar para ver o desenrolar dos próximos acontecimentos em sua vida e descobrir como possivelmente ela transformará o cotidiano daqueles ao seu redor.

⭐⭐⭐⭐½

APOCALYPSE HOTEL [Plinio]

 “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.” Esta frase é atribuída ao filósofo Mark Fisher, sobre a noção de um sistema frágil e tradicionalista que precisa ser defendido a todo custo, mesmo que sua deterioração seja inevitável. A afirmação relembra a condição sociocultural japonesa atual, na qual o embate entre a tradição e a tecnologia cria um dilema paradoxal, admitindo a possibilidade de consertar um carro em movimento. Apocalypse Hotel é provocador ao criar um mundo pós-apocalíptico que, mesmo sem a existência de seres humanos, ainda busca manter as tradições.

Aqui conhecemos o Hotel Gingarou, um edifício localizado em Ginza, um bairro de Tóquio famoso por suas lojas de grife e com o maior custo por metro quadrado do Japão. O que um dia foi uma localidade moderna, cheia de letreiros luminosos e com ruas repletas de carros luxuosos, agora está tomada pela flora e fauna e sem sinal de vida humana. O anime inicia com o pronunciamento de que a poluição e o aquecimento global promoveram doenças virais que se espalharam pelo ar e causaram a morte de muitos humanos — somente os “escolhidos” puderam fugir para o espaço. 

O hotel é especial pois ainda está em funcionamento, mesmo após o apocalipse. O cotidiano hoteleiro é comandado por Yachiyo, a robô gerente de Gingarou. Ela foi programada para atender com perfeição os clientes do estabelecimento, e atua praticamente como uma diarista para deixar tudo em ordem para o próximo hóspede. Vários outros robôs estão presentes para executar tarefas mínimas, como o matador de moscas, flanelinha, porteiro e perfuradores de fontes termais. A função deles é essencial na teoria, porém inútil na prática. Ainda assim, pela justificativa da tradição, seus trabalhos são mantidos. Aos poucos, esses robôs param de funcionar, chegando ao fim da vida útil, com Yachiyo recolhendo-os e fazendo a cerimônia de despedida de suas funções. Quanto tempo isso vai durar? Ainda faz sentido manter essa tradição? Saberemos as respostas com o decorrer do anime.

Apocalypse Hotel é muito promissor. Narrativamente, a ideia de contrastar a tradição com a modernidade é genial quando as atividades de um hotel tornam-se referência de “coisa do passado”. No Japão, há uma discussão sobre os aplicativos de hospedagem e hotelaria, e como eles roubam espaço dos pequenos negócios, prejudicando as pousadas japonesas denominadas “Ryokan”. Muito é discutido sobre o porquê das pousadas não conseguirem se sustentar. Uma das desculpas é que a tradição não tem lugar contra a modernidade. Ainda que essa afirmação pareça ser apenas uma manchete de reportagem orientalista, a invisibilização das reais causas desses fenômenos cultivam insensibilidade e alienação do público. O anime trata esse assunto com comédia e ironia, criando uma caricatura desse cenário e deixando claro que é mais fácil imaginar que os problemas sempre existiram e que não há alternativa. 

Alguns lapsos de memória deixam implícito que há humanidade por trás da ideologia, e mesmo a Yachiyo parece cultivar sentimentos por todos os que trabalharam junto a ela. É justamente por ser um anime original que sua narrativa é milimetricamente mensurada para se encaixar em seus vinte e quatro minutos iniciais, criando um mundo de possibilidades para além desse primeiro episódio. Tenho muitas esperanças com Apocalypse Hotel, e mesmo que seja uma obra original, sinto que dessa vez será diferente.

O anime é uma produção do estúdio CygamesPictures (Bang Brave Bang Bravern, Princess Connect! Re:Dive), a diretora é a Shundou Kana com roteiro de Murakoshi Shigeru (Ninja Kamui, Murenase! Seton Gakuen, Zombie Land Saga). A composição musical é de Fujisawa Yoshiaki (Sora yori mo Tooi Basho, Shoujo☆Kageki Revue Starlight, Uchouten Kazoku).

⭐⭐⭐⭐⭐

Hibi wa Sugiredo Meshi Umashi [Mari]

Que eu sou fã de carteirinha do estúdio P.A. Works não deve ser novidade para ninguém. Eles não só entregam adaptações fantásticas de obras já existentes a exemplo de Uchouten Kazoku, Paripi Koumei e Skip to Loafer, como também investem com frequência em animes originais. Em uma indústria que está abarrotada de projetos que muitas vezes o único objetivo é entregar um produto mais ou menos para impulsionar vendas — vide a cacetada de isekais que temos toda temporada — a qualidade do P.A. Works se sobressai. Seria uma inverdade da minha parte dizer que eles sempre acertam, mas eu respeito a liberdade criativa que eles dão para seus diretores, roteiristas, animadores e demais envolvidos nas produções. O estúdio, inclusive, é conhecido por ser um dos melhores para se trabalhar, ainda que tenha alguns problemas.

O primeiro episódio de Hibi wa Sugiredo Meshi Umashi se inicia com a introdução de Kawai Mako, uma garota que acaba de entrar na faculdade e que tem uma paixão por comida. O cotidiano de Mako é um tanto solitário — ela mora sozinha, não tem amigos, e interage pouco com outras pessoas. Ela afirma em um monólogo interno que as coisas nem sempre foram assim, pois ela costumava ter várias amizades quando criança. No entanto, conforme ela foi envelhecendo, ela foi ficando mais tímida e desenvolveu uma espécie de medo que a impede de ter novas experiências mesmo quando ela secretamente deseja que elas aconteçam. O cenário começa a mudar quando ela reencontra uma amiga do primário, Ogawa Shinon, que a apresenta às suas amigas Higa Tsutsuji e Furutachi Kurea. Juntas, as quatro criam o “Clube de Pesquisa sobre Cultura Alimentar” e Mako mal pode esperar para aprender novas receitas, provar diferentes sabores, e se divertir cozinhando.

O problema é que… O objetivo de Mako difere do intuito de Shinon ao criar o clube, e a pobre coitada só descobre isso no final do episódio. Enquanto ela achava que teria uma experiência incrível e gratificante ao lado das outras meninas, Shinon (e aparentemente suas amigas inclusas) só queria ter um lugar exclusivo para vadiar. Mako ficou sem reação e honestamente eu também. Dito isso, eu não acredito que o plano de Shinon vá se concretizar, pois se isso acontecesse o anime não se chamaria “Comida para a alma” em tradução livre.

Tecnicamente falando, Hibi wa Sugiredo Meshi Umashi apresenta a qualidade que você esperaria de um anime do P.A. Works. Embora eu tenha achado o character design meio “fofo demais” para personagens que eles querem que eu acredite que estão na universidade, ele é bonito e funcional. As cenas envolvendo o objeto principal da obra, comida, são ricas em detalhes e deixam o espectador com água na boca. Vale mencionar que uma parte significativa do elenco de vozes é formada por novatas: Moeno Azuki, que interpreta o mascote Mokotarou do programa de TV que Mako assiste, está estreando na indústria; Shimano Hana (Mako) e Inui Natsune (Tsutsuji) estão assumindo um papel principal pela primeira vez. Somente Aoyama Yoshino (Shinon) e Kakuma Ai (Kurea) são experientes. Ainda há personagens a serem introduzidos e eu estou curiosa para ver como a dinâmica ficará!

⭐⭐⭐⭐½

KOWLOON GENERIC ROMANCE [Ana]

KOWLOON GENERIC ROMANCE é aquele típico caso de anime que eu esperava ter gostado mais. Não é novidade que eu não conheço mangá (porque eu nunca leio nada mesmo), mas baseado na adaptação da obra anterior da autora, Koi wa Ameagari no You ni (After the Rain), eu esperava um pouco mais. Eu não gosto de assistir uma coisa que não entendo direito o que de fato está acontecendo e esse sentimento fez mais sentido quando eu soube que muita coisa foi acelerada nesse primeiro episódio, deixando de abordar pontos importantes, o que me desanimou um tanto com a adaptação.

O pouco que sei da ambientação é que a história se passa em um futuro distante, na cidade murada de Kowloon, uma periferia de Hong Kong, remetendo à cidade que realmente existiu e chegou a ser o lugar mais populoso do mundo no final do século XX, mas que foi completamente demolida devido às condições insalubres do local. Por isso a obra também traz essa questão da nostalgia misturada com ficção científica, já que as pessoas vivem sob um satélite artificial no céu, relacionado ao projeto “Generic Terra”, sendo essa umas das partes que sinceramente não entendi muito bem, mas seguimos.

Na história acompanhamos Reiko Kujirai, uma corretora imobiliária e seu único colega de trabalho, Hajime Kudou. É nítido que Kujirai sente algo por ele, mesmo a relação entre os dois sendo estranha, com uma certa rispidez vinda de Kudou em vários momentos. Além disso, a atmosfera do anime passa uma sensação esquisita o tempo todo. Por exemplo, quando Kudou leva Kujirai a um restaurante de peixes dourados que frequenta regularmente, e ela se sente desconfortável com a sensação nostálgica, mas não consegue entender o que de fato lhe causa esse sentimento, mesmo que as ações de Kudou indiquem que algo estranho está acontecendo. Por fim, ela descobre que já havia frequentado aquele lugar com ele, ou melhor, ela vê uma foto em que estava lá, mas não tem memória nenhuma disso e deixando a dúvida se é apenas uma perda de memória ou se seria uma troca de realidades, simplesmente não dá pra saber.

Ainda, foi difícil não me sentir desconfortável no momento em que Kudou beija Kujirai depois de um incidente e mesmo quando ela começou a relutar, ele continuou forçando o beijo, para depois agir como se nada tivesse acontecido. Sabemos que possivelmente ambos tinham um relacionamento no passado (isso considerando que é a mesma Kujirai), mas nada lhe dá motivo para agir dessa forma.

Fora isso, a obra tem uma estética diferente e bem bonita, principalmente o design dos personagens, que lembram um pouco obras mais antigas. A ambientação é muito intrigante e eu realmente gostaria de aproveitar mais a história, conseguindo entender um pouco melhor os caminhos que ela pretende nos levar. No entanto, me preocupa o fato de que talvez estejam correndo com a adaptação, para fazer tudo se encaixar dentro de 13 episódios e com isso deixem pontos importantes de lado.

⭐⭐⭐

Lazarus [Ana]

Quando vi a premissa de Lazarus, me veio de imediato a sensação de que poderia dar muito ruim, mas ainda assim eu não poderia deixar passar, não apenas pelas inúmeras referências científicas, mas também pela junção de tantos nomes importantes da indústria envolvidos na obra. Além de ser uma criação original do diretor Shinichirō Watanabe (Cowboy Bebop e Samurai Champloo), o anime conta com sequências de ação coreografadas por Chad Stahelski, diretor da franquia John Wick. Ou seja, é óbvio que as cenas de ação chamam a atenção e são bem produzidas, mas ainda tenho minhas dúvidas se a história se sustentará até o fim.

A história de Lazarus se passa em 2052, após a criação de um medicamento chamado Hapuna, desenvolvido pelo Dr. Skinner, que promete ser uma panaceia, ou seja, capaz de curar qualquer doença, sem efeitos adversos. A população se torna totalmente dependente da Hapuna, enquanto Skinner desaparece. Três anos depois, ele retorna para anunciar que a droga é, na verdade, letal e que todos que a consumiram morrerão em breve.

Uma curiosidade sobre esse conceito inicial é que a ideia de panaceia vem da mitologia grega, representando a cura de todos os males. Na história da medicina e farmacologia moderna, já houve tentativas de se criar algo semelhante, mas logo se percebeu que isso seria, no mínimo, utópico. Também acho interessante que o nome “Skinner” talvez não seja uma simples coincidência. Houve um cientista real com esse nome, importante no campo da Psicologia, que contribuiu com análises sobre o comportamento, descrevendo relações entre estímulos e respostas e defendendo, inclusive, que o livre-arbítrio seria uma ilusão. Suspeito, não é mesmo?

Inicialmente, acompanhamos principalmente Axel, um fugitivo da prisão, e posteriormente Christine, Eleina, Leland e Doug, agentes de diferentes partes do mundo que se unem para formar o grupo “Lazarus”, sendo responsável por encontrar Skinner e desenvolver um antídoto com urgência. Como comentei antes, a ação é bastante presente, no entanto, o anime também apresenta momentos de humor e busca abordar temas importantes, como a dependência de medicamentos. Um exemplo do mundo real é a crise dos analgésicos opioides (com propriedades semelhantes à heroína), que tem afetado muitos países.

Visualmente, Lazarus chama atenção pelo estilo: animações fluidas, cenas de ação intensas, e um design de personagens marcante. Além disso, destaco bastante a trilha sonora, uma fusão entre jazz e música eletrônica capaz de adicionar ainda mais emoção às cenas. Assim, vejo que Lazarus chega com muita ambição, reunindo nomes consagrados, e atraindo o público que gosta de ficção científica, trazendo conceitos até mesmo filosóficos. No entanto, fico com um pé atrás pela incerteza sobre o seu desenvolvimento a longo prazo, não sei se tanto conceito e referência são só para chamar a atenção. A princípio acredito que valha a pena acompanhar, porém veremos se a obra se sustentará.

⭐⭐⭐⭐

mono [Lucy]

Sei que se olhassem meu MyAnimeList, muitas pessoas apontariam algumas falhas de caráter gritantes no meu currículo. Tenho certeza que uma das mais citadas seria não ter visto Yuru Camp até hoje. O lado bom disso? Conseguir assistir mono sem fazer nenhuma comparação à obra anterior do autor! Estou entrando completamente cega nas ideias do mangaká afro, sem expectativa alguma sobre os shiny days que sei que estão por vir nas vidas dessas meninas.

O que posso afirmar desde já é que a apresentação se destaca muito mais do que o roteiro: o visual é bem colorido, do melhor jeito possível, com animação de personagens fluída e vibrante e cenários maravilhosos — o que chega a parecer loucura, visto que é a primeira série do estúdio Soigne. Entretanto, por mais que eu tenha noção de que o anime é baseado numa série de tirinhas e que isso deve ter sido feito em nome da comédia (sem contar que no mangá original deve ser mais rápido ainda), o ritmo do episódio me desestabilizou um pouco. Atravessamos o espaço de um ano em menos de dez minutos, e ainda assim, faltam peças para terminar de estabelecer o ponto de partida da história (não chegamos nem no enredo descrito na sinopse oficial do anime!). Vemos os desdobramentos de vários eventos no espaço de 24 minutos, mas apesar disso, sinto que mal deu para conhecer as personagens. Essa discrepância fez eu pouco a pouco ir perdendo meu interesse nos acontecimentos apresentados, por mais meiga que seja a retratação deles.

Ainda assim, em termos gerais, é um primeiro episódio bastante competente em diversos aspectos, e certamente uma aposta mais do que segura para fãs do gênero. Para mim, uma espectadora um tanto casual de meninas fofas praticando seus hobbies, está faltando algo para me capturar. Claro que não tenho como negar que o elemento metatextual sobre a criação de um mangá baseado nas protagonistas é interessante, e esse ponto despertou minha curiosidade em como será trabalhado. Sinceramente, admito que essa minha opinião pode ser uma questão de eu ter assistido o episódio sem estar no clima para tal. Estou disposta a dar mais chances para mono, porque quero gostar desse anime. Repito que é um episódio tecnicamente muito bom, e acredito que a qualidade se manterá pelas próximas semanas.

Até porque é mesmo meio hilário como, no fim das contas, basicamente foi o amor lésbico que deu o pontapé para a história começar. Se as duas protagonistas não fossem tão gado, nada disso teria acontecido.

⭐⭐⭐

Rock wa Lady no Tashinami deshite [Mari]

A estreia de Rock wa Lady no Tashinami deshite me deixou com sentimentos mistos. Por um lado, como alguém que é viciada em rock, eu amei a premissa de ter duas personagens cuja paixão pelo gênero é tão forte que elas estão dispostas a trilhar um território proibido para ladies da classe alta japonesa. Por outro, é muito óbvio que Fukuda Hiroshi, autor do mangá, encheu a obra de referências à literatura conhecida como “Class S”. Para quem nunca ouviu o termo antes, ele basicamente engloba histórias do começo do século XX — que depois tiveram um “revival” nos anos 90 — onde as protagonistas eram sempre garotas que cultivavam fortes sentimentos por outras garotas numa espécie de “amizade romântica”. Essas histórias geralmente se passavam em escolas que somente garotas podiam se matricular e as experiências que elas tinham lá eram vistas pela sociedade como algo meramente passageiro, mesmo quando envolviam amor e desejo genuínos.

Seria burrice da minha parte descartar a influência que a literatura Class S teve sobre o que hoje conhecemos como yuri. No entanto, embora eu reconheça a sua importância histórica, nós estamos vivendo em um momento em que os autores possuem mais liberdade para explorar relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero. Rock wa Lady no Tashinami deshite obviamente não é um yuri e tudo bem que não seja — eu assistiria ao anime de qualquer jeito — mas me dá um pouco de preguiça que o autor esteja utilizando as referências que mencionei com o único objetivo de “fisgar” as pessoas que gostam de yuri. Eu iria gostar muito mais do trabalho dele se o relacionamento entre Otoha e Lilisa não fosse apenas bait.

Dito isso… Rock wa Lady no Tashinami deshite também possui méritos. A minha parte favorita até então é a protagonista Lilisa e o conflito interno que ela tem entre deixar para trás quem ela foi um dia para se tornar o que se espera dela agora que sua mãe se casou com alguém da classe alta japonesa. Apesar de estar decidida, Lilisa fica balançada quando conhece Otoha, que por fora é tudo que ela sonha em ser, mas que por dentro compartilha da mesma paixão pelo rock e, ao contrário de Lilisa, não está disposta a abandonar esse lado dela. A forma contrastante com a qual as duas foram criadas somadas às personalidades distintas que possuem gera uma sequência de interações muito boas que carregam o anime. Eu estou curiosa para descobrir como a coisa vai se desenrolar a partir daqui e também para conhecer as outras personagens que faltam para completar a banda que vimos no pôster de Rock wa Lady no Tashinami deshite.

Em termos técnicos, a adaptação é bem-feita. O design das personagens é criativo e a computação gráfica, apesar de ser meio feia, funciona. O destaque de fato vai para o trabalho fantástico que as atrizes de voz vem fazendo. Shimabukuro Miyuri, que interpreta a Otoha, já ganhou meu coração quando fez a Carole em Carole & Tuesday e a Mei em Yoru no Kurage wa Oyogenai, mas aqui o range dela fica mais evidente. Podemos dizer o mesmo da Sekine Akira, conhecida principalmente pelos seus papéis como Charlotte em Princess Principal e Saki em Senpai wa Otokonoko, e a constante mudança de personalidade entre os monólogos internos de Lilisa e sua “lady” de fachada. A única coisa que me incomodou foi o enquadramento de uma cena em que a Otoha está procurando sua palheta e há um óbvio ato de fanservice, mas seguimos. Eu infelizmente já esperava algo assim quando vi a tag de “ecchi” no mangá…

⭐⭐⭐⭐

Sugestão de leitura: Beyond The School Cathedral: How Yuri Grew Up (Nicki “YuriMother” Bauman via ANN)

Summer Pockets [Plinio]

Oriundo da adaptação de um romance visual, Summer Pockets não esconde suas origens. Acompanhamos a história de Takahara Hairi, um garoto que foi convidado por sua tia para realizar a limpeza de um depósito cheio de itens pessoais importantes para sua falecida avó. Este lugar fica em uma ilha isolada, chamada Torishirojima, local onde morava sua avó até então. Sua vida está turbulenta e ele resolve atender ao chamado, a fim de varrer a ansiedade de sua cabeça. Lá, Hairi conhece sua prima Umi, que vem para o ajudar na limpeza, e que aparenta não saber cozinhar outra coisa que não seja arroz frito. Brevemente, ele também é introduzido a pessoas aleatórias, como uma nadadora noturna, uma sonâmbula misteriosa e uma caçadora de semi-nus. Será possível, por parte de Hairi, o exercício da ataraxia?

É comum sair de um primeiro episódio de uma visual novel da Key sem entender bulhufas. Suas histórias aproveitam da ambientação interiorana para estimular o mistério e a curiosidade, promovendo as histórias que podem se encontrar nesses locais paradisíacos. A confusão é natural, pois se trata de um suspense dramático, logo as cartas ainda não estão na mesa neste primeiro episódio. Acredito que tanto Rewrite quanto Summer Pockets sofrem desse defeito que assola tantos animes de mistério nessa temporada: a falta de objetividade. Ao contrário de outras obras, não consigo fornecer uma primeira impressão cem por cento genuína de Summer Pockets, uma vez que eu já a joguei. O estúdio é muito especial para mim, e suas obras foram responsáveis por me fazer assistir anime até hoje. Tal qual um maluco obcecado por factoides, conheço muitos casos de bastidor da Key/Visual Arts. Tentando me esquivar de gerar spoiler, posso garantir que a dificuldade nas adaptações de romances visuais pode estar atrelada com a intencionalidade da desenvolvedora em utilizar os recursos da mídia para desenvolver a história, abusando de ferramentas como a estruturas de rotas, ferramentas de avanço rápido, múltiplos salvamentos e conteúdos adicionais por meio do novo jogo. Poucos conseguiram tornar a experiência de múltiplas rotas algo verossímil em anime. Brinco com alguns colegas que Yosuga no Sora é a melhor adaptação de uma visual novel, por conta da falta de pudor em gerar novas rotas aleatoriamente, sem nenhuma empatia de introduzir a mecânica aos espectadores que não sejam otakus. Vejo que Summer Pockets irá ter um grande trabalho para lidar com isso, só consigo desejar sorte a equipe de produção. Inclusive, desejaria a eles uma pessoa como a Lucy, redatora do Rukh, que possui um dos melhores poderes de síntese que conheço no planeta, para suprir esta falta de objetividade.

Com a lendária rejeição da Kyoto Animation a qualquer nova produção de anime para a Key, houve diversos estúdios precisando arcar com a responsabilidade de adaptar os jogos, porém a maioria não obteve sucesso. Desta vez, Summer Pockets fica sob a responsabilidade do estúdio feel. (Ushinawareta Mirai wo Motomete, Yosuga no Sora, Island, D.C.: Da Capo). A direção fica com Tomoki Kobayashi (Steins;Gate, Utawarerumono, sola, Akame ga Kill). O roteiro infelizmente fica com Keiichiro Ochi (Hikikomari Kyuuketsuki no Monmon, Kanojo mo Kanojo, Seiyuu Radio no Uraomote). A composição musical é da Donmaru, composta por Jun Maeda, Shinji Orito, e outros.

⭐⭐½

Uma Musume: Cinderella Gray [Plinio]

Não! Isso não é uma continuação de Uma Musume! Desde a segunda temporada do anime os produtores desta franquia não tem medo de abandonar um elenco de personagens para promover uma nova história. Existe uma especulação controversa sobre o porquê isso acontece, mas vamos falar de coisas boas. Uma Musume: Cinderella Gray é o novo título da Cygames, focada na regionalização das corridas de garotas-cavalo.

Acompanhamos a história pelos olhos de Berno Light, uma cavala que se meteu em um estábulo estudantil barra pesada acreditando que poderia se tornar uma atleta de elite. A escola parece ter sido dominada pelo espírito de porco, com muitos desiludidos amargurados sem expectativa alguma no futuro. Entretanto, a lente da câmera foca em uma potra cinzenta misteriosa. Com seu apetite de exército, a felicidade em ter um teto e comida de graça é suficiente para aguentar os valentões mais perigosos dentre o mundo equestre. Em uma das aulas práticas, ela chama a atenção de um dos treinadores de cavalo, e ela honra seu lugar de destaque. Perguntada qual seu nome, orgulhosamente pronuncia o nome do lendário alazão, Oguri Cap.

Por mais que minhas impressões estejam enviesadas com o conhecimento de obras passadas, cada temporada aborda uma lição ou tema específico, então acredito ser importante contextualizar o que há de especial em Cinderella Gray. É difícil imaginar um talento nascer no interior do interior de uma nação. Redes de contato serão sempre um recurso imprescindível para catapultar o seu profissional ao patamar que te pertence. Em todas as obras até então, cada Uma Musume que protagoniza seu título viaja da sua municipalidade até a capital em busca de treinamento com os melhores. Quem acompanha a franquia acredita que só existem corridas nas grandes cidades. A realidade demonstra que elas também existem em pequenas cidades, porém com pouquíssima adesão do público local que não possui interesse em atletas amadores. Esta temporada aparenta ser um promocional para as competições regionais e a escalada que um cavalo precisa fazer para competir em turfe japonês. Que nem as temporadas alternativas, Cinderella Gray parece ampliar a construção de mundo da obra, novamente buscando a ajuda da trope esportiva para criar dramas carregados de emoção.

Tendo assistido apenas as três temporadas do anime, consigo dizer que esta se aproxima do clima da segunda temporada, a minha favorita. Utilizando o exemplo dos quadrinistas, é comum a produção de releituras de personagens por outros autores, ampliando o mundo e estabelecendo a canonização de textos alternativos. O mangá é desenhado por Kuzumi Taiyou e escrito por Masafumi Sugiura, roteirista de animes como Barakamon, Yuru Camp S3 e Kuma Miko. O mangá é serializado na Weekly Young Jump. A direção é de Itou Yuuki (takt op.Destiny, GRANBLUE FANTASY The Animation, Mahou Shoujo Lyrical Nanoha ViVid), o roteiro é de Aki Kindaichi. A composição musical é de Kenji Kawai (Fate/Stay Night, Mob Psycho, Barakamon). O anime é produzido pelo estúdio CygamesPictures (Bang Brave Bang Bravern, Princess Connect! Re:Dive, THE iDOLM@STER Cinderella Girls: U149).

⭐⭐⭐⭐

WITCH WATCH [Plinio]

O exercício que mais amo é praticar a baixa expectativa. Não há nada de errado com o pessimismo não-externalizado, pois é um jogo covarde de ganho duplo. Dentre todas as estreias, Witch Watch era a que menos me empolgava. É difícil apostar todas as fichas em uma comédia, pois não existe objetividade na avaliação de uma, já que a sensibilidade para as piadas varia muito de pessoa para pessoa. Aprendi isso com a febre de Shikanoko Nokonoko Koshitantan, no entanto qualquer comparação entre essas duas obras é inválida!

Acompanhamos a história de Morihito, um rapaz centrado que exercita o autocontrole emocional para conter sua força destrutiva, uma vez que descende dos ogros, mas cuja aparência não difere de um humano normal. Por motivos morais, ele utiliza sua força para defender e não para atacar, uma justificativa que cria situações onde a força é usada indiscriminadamente em prol da proteção de uma certa bruxinha. Nico é uma jovem bruxa que nutre uma paixão por Moi (apelido carinhoso de Morihito) desde os tempos de infância, onde ele a protegia contra os vizinhos malvados. A magia nesse mundo requer uma troca equivalente ou efeitos colaterais contrários aos efeitos desejados. Nesse ambiente, a piada se encontra nas confusões geradas pelas reações adversas dos feitiços de Nico. A intensidade dessas desordens só ficará maior, uma vez que ela irá morar sob o mesmo teto que Morihito com o objetivo de torná-lo seu familiar. Com a promessa de que irá protegê-la sob quaisquer situações, o anime deslancha prometendo muitas piadas eficazes.

Tecnicamente falando, uma comédia pode contrabalancear a animação com um bom roteiro, logo não é necessário que tudo seja extremamente bonito desde que a cena te faça rir no fim. Digo isso porque os animadores do estúdio Bibury Animation Studios (Kimi no Koto ga Dai Dai Dai Dai Daisuki na 100-nin no Kanojo) parecem focar bastante na expressividade ao design detalhado e travado. Em outras obras do estúdio, o foco sempre é na animação fluida com mais detalhes nos efeitos do que nos personagens, o que combina muito com Witch Watch e sua magia. Uso o parâmetro Violet Evergarden para representar o que seria algo bem detalhado. A direção também consegue entregar os quadros necessários para o impacto acontecer. É muito fácil enxergar o humor de Gintama e Nichijou nos quadros com profundidade, que utilizam as linhas para criar o efeito tridimensional que salta os personagens para fora da tela. Pelo que foi apresentado, não parece o tipo de comédia que possui baixo tempo de prateleira. Faço-me convencido! Witch Watch é uma comédia do meu tipo.

O diretor responsável é Ikehata Hiroshi (Tonikaku Kawaii, Murenase! Seton Gakuen) e é um mestre dos storyboards. A composição de série é de Hitomi Mieno (Flying Witch, Amanchu!, Koi wa Ameagari no You ni). A composição musical é de Hashimoto Yukari (Toradora, Yubisaki to Renren). O mangá é de autoria de Shinohara Kenta (SKET Dance, Kanata no Astra) e é serializado na Weekly Shonen Jump. O anime contará com 26 episódios.

⭐⭐⭐⭐

ZatsuTabi -That’s Journey- [Lucy]

Particularmente, acredito que esse anime será melhor apreciado se você assisti-lo ao final do dia: quando você está cansado, seu cérebro entrou em piloto automático, e tudo o que você precisa é relaxar um pouco antes de cair no sono.

Ou talvez seja só meu hábito de assistir vlogs silenciosos de viagem no YouTube que se manifestou ao ver esse anime, porque é exatamente o clima dele: a explicação para a protagonista partir em sua jornada é extremamente simplista, e a execução dos passeios também não é nada elaborada. Chika simplesmente passa por pontos turísticos, comenta algo sobre o local, há um narrador providenciando curiosidades. É calmo, mas nada revolucionário.

Se a descrição te entediou, então provavelmente não será para você. Mas eu curti bastante! Acredito que a série manterá esse ritmo pacato e — convenhamos — publicitário em relação aos locais visitados pelo elenco. A abertura indica que mais personagens se juntarão às jornadas em breve, mas dado que nem a protagonista tem uma personalidade definida além do emprego, não estou esperando grandes diálogos nem desenvolvimentos. Na verdade, não espero desenvolvimento algum, estou tratando ZatsuTabi tal como a minha playlist de vlogs. Estou aqui apenas para apreciar as boas paisagens desenhadas pelo estúdio novato Makaria (que pelo visto deve estar usando muitas imagens de referência). A animação em si não é grande coisa, mas considerando que esse não é o foco dos episódios, e que a experiência da equipe é pouca, estou disposta a aceitar a situação.

O episódio tem tão pouco conteúdo que fica difícil se estender muito nos meus comentários. Mas a primeira impressão me agradou, e espero que é a que fique!

⭐⭐⭐

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