Primeiras impressões: temporada de outono (2025)

Acabamos de encerrar uma temporada de verão que foi acima da média, incluindo ótimas continuações e novos títulos promissores. Esta temporada de outono, por outro lado, parece que ficará no meio termo: apesar de não haver nenhum grande destaque, foi possível escolhermos algumas obras que ao menos devem ser divertidas de se acompanhar.

Nesta postagem vocês poderão conferir nossas primeiras impressões de Egao no Taenai Shokuba desu., GNOSIA, Saigo ni Hitotsu dake Onegai shitemo Yoroshii deshou ka, Wandance, Watashi wo Tabetai, Hitodenashi e Yano-kun no Futsuu no Hibi.

Egao no Taenai Shokuba desu. [Mari]

A adaptação de Egao no Taenai Shokuba desu., abreviada como EgaTae, é baseada em um mangá de mesmo nome escrito e ilustrado por Kuzushiro, uma mangaka que está há pelo menos 15 anos na indústria — a contar pela data da sua primeira serialização — e é conhecida principalmente por escrever histórias centradas em mulheres. Várias dessas obras incluem romance entre suas personagens, mas não é sempre que este elemento está presente. Quem acompanha a Kuzushiro há bastante tempo sabe que ela gosta de provocar o leitor, oferecendo um subtexto que pode ser lido como paixão entre suas personagens, mas que não necessariamente vai se concretizar ao longo da história. Tem gente que acha isso ruim, inclusive classificando certas obras como “yuri bait”, mas eu prefiro encará-las de outra forma. A Kuzushiro gosta de explorar as diferentes facetas dos relacionamentos humanos, algo que eu consigo apreciar, pois na vida real nem tudo é tão “preto e branco” como esperamos.

Em se tratando de EgaTae especificamente, eu acredito que o objetivo da autora é demonstrar por meio de sua obra como é o dia a dia de uma mangaka profissional de uma maneira divertida. Para tal, ela fará uso do que tem de melhor: o talento para retratar interações entre personagens de forma cômica e crível ao mesmo tempo, às vezes adicionando até mesmo uma pitada de drama.

No primeiro episódio nós somos apresentados ao núcleo principal: Futami-sensei, uma mangaka que ainda está engatinhando na indústria; Ha-san, a assistente de Futami que, além de colaborar diretamente com os desenhos, se certifica de que ela cumprirá todos os seus prazos, se esforçando para evitar que sua mestre se perca em meio a sua imaginação fértil; e Satou-san, a editora responsável pela publicação do mangá de Futami (e vários outros autores muito mais conhecidos do que ela). As três possuem personalidades completamente distintas, o que torna o convívio entre elas engraçado e um prato cheio em termos de entretenimento. Não me parece haver um enredo particular a ser seguido ou desenvolvido até o momento, mas terei uma ideia melhor com o decorrer dos episódios.

Quanto ao visual, EgaTae é competente. Não há nada que se sobressaia nem positiva nem negativamente, mas por ser um slice of life, eu também não acho que a obra precise muito mais do que isso — desde que a qualidade seja mantida — para cumprir com o seu objetivo. Vale destacar que essa é apenas a segunda adaptação pela qual o estúdio Voil ficou inteiramente responsável, porém eu gostei que escalaram somente mulheres na equipe principal: Suzuki Kaoru (Dive!!, Doukyonin wa Hiza, Tokidoki, Atama no Ue.) na direção, Inoue Mio (Slow Start) na composição de série e Miyai Kana, uma animadora experiente, no character design. O elenco de vozes também está incrível, com destaque para as atrizes que já apareceram no episódio de estreia: Natsuyoshi Yuuko, Itou Miku e Amamiya Sora. Estou animada para continuar acompanhando a confusão diária dessa galera!

⭐⭐⭐⭐

GNOSIA [Plinio]

Posso resumir Gnosia como um Among Us entre os participantes de Drag Race. Ambientado em uma nave espacial, esse mistério envolve descobrir qual é o impostor dentre os tripulantes, sendo este capaz de infectar um humano, de forma similar a zumbi, e que tem o objetivo de eliminar a humanidade. O processo de eliminação da ameaça é por meio de convencimento e votação, onde a maioria decide o destino do acusado. A nave possui uma inteligência artificial que consegue reconhecer se o infectado foi eliminado após a votação.

O primeiro episódio é bem confuso, mas acredito que faz parte do apelo necessário para um mistério. Os personagens são todos bem diferentes, com roupagens bem únicas. Alguns se apresentam como não-binários, outros como loucos, alguns apelam para a sedução e todos se vestem de forma extravagante e até parece que isso serve para causar confusão e tirar a atenção de certas nuances. Há informações que parecem perdidas, porém tudo se mostra possível pois se trata de uma ficção científica. Não me surpreenderia a presença de viagem no tempo, ressurreição, poderes, e são tantas variáveis que só de pensar tenho dor de cabeça. Mistério é meu gênero favorito, e adoro trabalhar com teorias e hipóteses com base no que a obra entrega, e quando se trata de obras do tipo, a potencialidade é sempre acima da média. É muito comum que você espere risadas em comédias, e o mínimo que espero de mistérios é aquela sensação de dúvida pairando até mesmo sobre a certeza. Apenas para instigar a curiosidade, digo que fui tapeado já no primeiro episódio.

É necessário um disclaimer: esta é uma adaptação de videogame. Não vou criar receios com o formato do material original, afinal, por mais que raros, os melhores resultados dos animes podem vir de adaptações de jogos, como Steins;Gate, Clannad, entre outros, ainda que a década atual tenha falhado em aproveitar essas fontes. Tamanha complexidade requer uma boa equipe, e de um esforço descomunal para manter a qualidade. Gnosia é feito pelo estúdio domerica (Fermat no Ryouri, Shakunetsu Kabaddi), com direção de Ichikawa Kazuya (Bakugan, Romantic Killer) e com roteiro de Hanada Jukki (Medalist, Girls Band Cry, Hibike! Euphonium, Sora Yori mo Tooi Basho).

⭐⭐⭐⭐⭐

Saigo ni Hitotsu dake Onegai shitemo Yoroshii deshou ka [Mari]

Às vezes tudo que a gente precisa é de uma oportunidade para dar um socão na cara de pessoas escrotas. Eu não julgo nossa protagonista Scarlet, pois eu faria o mesmo.

Scarlet é filha do Duque Vandimion e passou a maior parte de sua vida como noiva de Kyle von Pallistan, o segundo príncipe do Reino de Pallistan, que apesar do título, de nobre não tem nada. Kyle é um completo idiota que só sabe abusar de Scarlet de tudo que é maneira até que ele finalmente resolve “libertá-la” por meio de uma humilhação pública, terminando o noivado durante um baile em que a maior parte da nobreza está presente. A partir de então, Scarlet decide não se segurar mais e dá uma surra daquelas em todos que merecem, incluindo seu ex-noivo. É neste momento que descobrimos que Scarlet tem ótimas habilidades de luta e que também é capaz de usar magia. O início de Saigo ni Hitotsu dake Onegai shitemo Yoroshii deshou ka é completamente caótico, mas não se deixe enganar: há muito a ser explorado por trás desta premissa maluca.

Foi provavelmente pensando nisso que tomaram a decisão de fazer uma estreia dupla, lançando dois episódios de uma vez. Desta forma foi possível nos apresentar não só aos personagens, mas também ao universo de SaiHito, que parece ser muito mais complexo do que esperamos em um primeiro momento. Existe uma crítica clara à forma com a qual o mundo é regido, onde pessoas boas sofrem e pessoas ruins enriquecem. Há inclusive uma ilusão àquela história da “Lei para Inglês Ver” — embora a escravidão tenha sido banida no Reino de Pallistan, por exemplo, existe uma facção inteira de nobres que segue envolvida com a compra e venda de escravos. Scarlet sabe que há muita podridão ao seu redor e ela não permitirá que tais pessoas sigam prosperando de braços cruzados.

Ainda que não possua nada de revolucionário, SaiHito conseguiu fisgar meu interesse sem fazer muito esforço. Além de ter uma protagonista ótima, que inclusive é interpretada pela Seto Asami, uma das minhas seiyuus favoritas, o anime está visualmente incrível. O estúdio LIDENFILMS vem fazendo um ótimo trabalho com o character design e a animação de uma forma geral. Recentemente eles foram responsáveis por adaptar a segunda temporada de Yofukashi no Uta, uma das melhores coisas que tivemos este ano na minha opinião. Se eles forem capazes de manter a qualidade dos primeiros episódios até o fim, ficarei bastante satisfeita.

⭐⭐⭐⭐

Wandance [Mari]

Eu vou fazer a advogada do diabo e dizer que Wandance não merece todo o hate que está tomando nas redes sociais. O CGI ficou ruim? Sim. Teria sido melhor se eles tivessem tentado fazer algo no estilo de Medalist ou UniteUp? Sem sombra de dúvidas. Isso é o suficiente pra arruinar toda a experiência da obra? Bem, no meu caso, não.

A primeira coisa que me chamou a atenção em Wandance foi o fato de termos um protagonista que tem disfemia (popularmente conhecida como “gagueira”). A condição de Kaboku é pouco retratada na mídia — eu, por exemplo, não consigo me lembrar de outro anime que tenha a feito de uma maneira realista e que não fosse apenas por humor — e acho que é importante fazermos com que pessoas como ele sejam vistas. Eu gosto também da ideia de que não devemos desistir de tentar algo que temos interesse por conta da vergonha ou por medo do que os outros vão pensar. Claro, é muito mais fácil falar do que fazer, mas a mensagem estar presente é o que importa. A cena em que Kaboku cria coragem para dizer aos amigos o que realmente pensa e corre atrás de Wanda, a garota que instigou nele uma vontade de aprender a dançar, é ótima. A única coisa que me preocupou até então em relação aos dois é que eu espero muito que a Wanda seja mais do que só uma menina bonita que serve de motivação para o protagonista… Algo que não consigo garantir neste momento.

Eu entendo muito pouco sobre dança, mas estou curiosa o suficiente para acompanhar pelo menos mais alguns episódios de Wandance e descobrir que rumo a história tomará.

⭐⭐⭐

Watashi wo Tabetai, Hitodenashi [Ana]

Eu sinto que Watashi wo Tabetai, Hitodenashi tem a faca e o queijo na mão — a mistura de elementos de GL, drama e sobrenatural me atraiu desde o início  —, mas agora resta saber se vão jogar o queijo fora e enfiar a faca no c*.  Sendo bem honesta, eu queria ter gostado mais, e não sei se minha opinião é minoria nesse caso.

Mesmo não querendo fazer comparações, fica bastante difícil quando acabamos de ter a superprodução que foi Hikaru ga Shinda Natsu, uma obra também do gênero horror e sobrenatural, com subtexto BL. No entanto, em Watashi wo Tabetai, Hitodenashi, em vez de assustar, eu senti que os elementos sobrenaturais beiram um pouco ao caricato. Shiori é uma daquelas sereias sombrias, que após salvar Hinako do ataque de outro mostro marítimo, diz a frase que mais iria se repetir ao longo dos episódios que já foram ao ar: “Eu vim para te comer”. E Hinako, por ser uma garota depressiva que mora sozinha nessa cidade à beira-mar, vê essa situação como uma ótima oportunidade de finalmente morrer. Parece muito saudável, não?

(Eu particularmente não acho que a solução para a depressão seja me apaixonar por um monstro que ainda afirma que irá me proteger até que eu amadureça o suficiente e me torne uma presa ainda melhor, mas aí sou eu, né?)

Alguns dos pontos positivos são que essa dualidade da proposta (terror e romance) continua sendo atrativa e a ideia de “protegê-la para depois devorá-la” gera uma tensão que contribui para a construção da narrativa e nos faz perguntar até que ponto a relação entre Hinako e Shiori vai se desenvolver emocionalmente e qual vai ser o desfecho dela. Além disso, a ambientação à beira-mar e a trilha sonora contribuem para a criação da atmosfera melancólica e a composição do suspense. O problema é que tudo parece extremamente arrastado, e apesar do anime conseguir introduzir bem as personagens, não há muito avanço no enredo nos dois episódios que já foram exibidos. Vejo um problema se a obra pesar na melancolia e demorar para realmente ter algum desenvolvimento, seja no sentido romântico ou no sentido do terror, pois no fim do segundo episódio eu já estava levemente entediada.

Por isso, apesar de ser visualmente bonito, com uma boa ambientação e trilha sonora, por enquanto Watashi wo Tabetai, Hitodenashi é simplesmente morno. Torço muito para que os próximos episódios sejam melhores e tenhamos um bom desenvolvimento da história.

⭐⭐⭐

Yano-kun no Futsuu no Hibi [Ana]

É inovador e revolucionário? Não. Mas logo de cara já consegui me encantar pelos personagens de Yano-kun no Futsuu no Hibi e ser entretida o suficiente para que minhas primeiras impressões sejam positivas. Fazer uso da “comédia do azar”, na qual o personagem se machuca constantemente e passa por situações embaraçosas, realmente não é algo novo, e por mais que às vezes eu me sinta uma péssima pessoa por me divertir com isso, é o que traz um tom cômico e leve para a obra.

Yano é esse garoto atrapalhado que vive cheio de ferimentos. No primeiro dia de aula ele já chega atrasado e todo machucado, o que faz com que Yoshida imediatamente se preocupe com o garoto e tome a decisão de cuidar dele, carregando inclusive um kit de primeiros socorros por onde vai. Rapidamente dessa preocupação começa a surgir algo a mais, e eu gostei que no segundo episódio já é possível perceber os sentimentos de Yoshida por Yano.

Yano e Yoshida logo de cara se mostram uns queridos. Ele é extremamente educado e por algum motivo sua forma levemente atrapalhada já conquistou Yoshida, cujas reações são as de uma pessoa cuidadosa e carismática. Além disso, os colegas de sala também são bem agradáveis, o que torna a atmosfera do anime bem tranquila de se acompanhar. Assim, o que parece é que teremos um romance escolar com ritmo mais calmo, sem grandes acontecimentos. O estilo visual do anime também chama a atenção pela sua simplicidade, é algo “menos glamouroso”, mas ainda assim bastante agradável.

No entanto, sempre que temos o humor vindo de algo muito específico, fica aquele pé atrás de que, com o tempo, a piada com as situações de azar do protagonista possa virar algo repetitivo ou exagerado e chegue a saturar. Dessa forma, se Yano-kun no Futsuu no Hibi conseguir manter um equilíbrio dessas situações e continuar entregando momentos agradáveis do cotidiano, além do desenvolvimento emocional dos dois protagonistas, pode ser uma boa comédia romântica leve e divertida.

⭐⭐⭐⭐

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