Impressões finais: temporada de inverno (2026)

Embora as temporadas de inverno costumem ser mais fracas, esse definitivamente não foi o caso em 2026. Pudemos acompanhar algumas ótimas adaptações nos últimos três meses e nesta postagem vocês poderão conferir nossas impressões finais dos seguintes títulos:  Champignon no Majo, GNOSIA, Hanazakari no Kimitachi e, Ikoku Nikki, Seihantai na Kimi to Boku, Tamon-kun Ima Docchi!? e Uruwashi no Yoi no Tsuki.

Champignon no Majo [Ana]

Champignon no Majo me trouxe sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que gostei do universo e dos personagens (em sua maioria) e certamente assistiria a mais episódios se houvesse, alguns pontos do desenvolvimento poderiam ser melhores.

Luna é uma personagem que cativa mesmo no silêncio. Seu drama, como uma bruxa “negra” incapaz de tocar humanos devido ao veneno que produz, mas ainda assim capaz de demonstrar amor por meio da magia, é realmente bonito. A imersão no universo da história é muito bem construída, e o anime começa com uma estreia forte, criando expectativas que, no entanto, não se desenvolvem plenamente. Após os dois episódios iniciais, que funcionam quase como um prólogo, há uma expansão do universo, explorando mais a divisão das bruxas “brancas” e “negras”. No entanto, a introdução de Lize como um “co-protagonista” faz as coisas desandarem um pouco.

A dinâmica entre Lize e Luna é interessante, mas Lize tem um desenvolvimento lento. Ele poderia funcionar apenas como aprendiz, porém o anime também inicia a construção de um possível interesse romântico por Luna que não leva a lugar nenhum. O tema de amar e ser amado torna-se recorrente, mas a obra não consegue avançar nessa proposta. Após a introdução de Lize, Luna chega a parecer uma personagem secundária, em uma história que deveria ser dela. As coisas ficam ainda mais confusas no final, quando o envolvimento entre Luna e Henri é relembrado. Durante boa parte do anime, fica a sensação de que os episódios iniciais são quase desconexos do restante da obra, até esse reencontro. Não chega a ser um problema em si, mas sinto que isso demorou mais do que deveria.

Também é frustrante que o anime termine sem uma conclusão clara, especialmente considerando que não parece ser o tipo de obra que receberá uma segunda temporada. Nesse sentido, há uma sensação de desperdício de tempo em cenas com diálogos excessivamente longos, como a reunião das bruxas “negras” na casa de Luna para decidir o destino de Lize, que foi um episódio inteiro de blá-blá-blá, ou a breve aparição do mago do vento no final, que só serviu para competir com o Claude em termos de quem é o mais chato.

Considero um ponto interessante a proposta de contrabalançar as poucas falas da Luna com personagens que falam o tempo todo, mas isso não funciona com todos, da forma que funciona com o Minus, por exemplo. No fim, continuo achando que Champignon no Majo possui um universo rico, mas que não foi bem adaptado para a quantidade de episódios disponíveis. Tenho certeza que a obra tem potencial para explorar melhor a Luna como protagonista e aprofundar suas relações e conflitos com os demais personagens.

7.0/10

GNOSIA [Plinio]

É necessário apenas um pint de cerveja para que eu profira com vigor: “Não-binários do mundo, uni-vos!”. Com muito otimismo, GNOSIA pode deixar uma forte impressão de anime bom e amigável ao público LGBTQIA+, porém são nas questões narrativas que mora sua fragilidade. Você escolheria atirar a pedra nesta vidraça?

Um dos temas centrais de GNOSIA vem da viagem temporal, recurso apresentado logo nos primeiros episódios do anime, e tanto as qualidades quanto os defeitos estão associados diretamente com a utilização deste mecanismo. A justificativa para este recurso está relacionada com a necessidade de conhecer o próximo, seus afetos, sua personalidade e sua história. Não demora muito para percebermos que talvez o preconceito e a curiosidade sejam variáveis co-dependentes. Os personagens, quando convencidos de que não há más intenções, nos revelam segredos e traços espontaneamente. Com isso, percebemos que, também baseado em preconceito (ou curiosidade), as outras pessoas podem escolher o que revelar. Personagens que são estimulados pelo gênero feminino ou masculino acabam por revelar segredos apenas quando tais requisitos são apresentados. Este é um lado bem dinâmico e didático de GNOSIA, que estimula a alteridade e nos revela muitas perversidades da humanidade. O anime, no entanto, possui 15 personagens e 21 episódios, adicionando-se do fator repetitivo que é a viagem temporal sob o mesmo período, acaba por causar desinteresse conforme você se depara com realidades pouco apelativas. A sensação é parecida quando você termina um jogo em que a história é legal, e descobre que existe mais enredo a partir de um “Novo Jogo+”. A história apresenta uma situação de jogo de dedução social, onde você precisa descobrir o vilão dentre os participantes de uma reunião. Entretanto, a conclusão desta dinâmica é secundária, uma vez que outro objetivo “mais importante” se desenha após uma série de episódios. Esta complexidade demanda explicações expositivas que você talvez não precise caso tenha experimentado Among Us ou outra recreação similar.

Logo, é bem capaz que você não seja recompensado por acompanhar uma tensão tão previsível. Dos elementos audiovisuais apresentados para mascarar a repetitividade está no uso de músicas de encerramento que dão a temática do gancho para o próximo episódio, alternando entre “Loo% Who%” de Ling Tosite Sigure, e “FLOOR KILLER” de UmedaCypher, que são utilizadas de acordo com o tema do cliffhanger, sendo o primeiro para questões da estrutura lógica dos loops, e o segundo quando um novo loop inicia-se no fim do episódio. São aquelas pequenas coisas que percebemos que há uma mínima tentativa de levar a sério a adaptação.

Ainda assim, acredito que os pontos positivos de GNOSIA superam os negativos. Adquirimos tolerância contra alguns roteiros fracos, aceitando a limitação e absorvendo só os benefícios. Não é toda hora que temos assuntos tão importantes sendo abordados casualmente, sem esforço em tornar o tema em uma batalha de convencimento. Tal qual o dilema do copo meio cheio ou meio vazio, GNOSIA é um meio interessante ou meio entediante, e no fim não existe resposta correta, pois a perspectiva individual é o determinante. Aliás, este é um dos poucos animes em que eu aprovo a atuação de Kana Hanazawa!

8.5/10

Hanazakari no Kimitachi e [Lucy]

Com exceção de um ou dois episódios, Hana-Kimi é uma obra muito boa para quando você quer algo descompromissado. Até mesmo a equipe responsável pelo anime parece concordar com isso, considerando que eles também não tiveram compromisso nenhum com sustentar o status de clássico do mangá original. Para fins de demonstração, podemos comentar sobre como a animação é básica ao ponto de economizar até o impossível, sobre como o visual dos personagens e dos cenários é anêmico de tão neutro, ou sobre como a adaptação parece estar apenas listando cenas e arcos do mangá como checkpoints — a meu ver, pelo menos, diversos momentos poderiam ter recebido muito mais ênfase e cuidado para expressar maior impacto emocional e ligação entre os personagens. A direção deixou a desejar em vários pontos.

Mas, apesar disso tudo, afirmo que nostalgia é uma droga, seja pelo bem ou pelo mal… porque ainda assim me diverti com esse anime. O romance é bem lerdo — não tinha como deixar de ser, considerando as circunstâncias da protagonista — mas conquista. Ajuda muito que o interesse amoroso é um personagem genuinamente gostável, mesmo que unidimensional. Mas isso é um problema geral da obra, então posso perdoar, até porque o grande (enorme!) elenco também tem seu carisma. Todos eles podem ser reduzidos a um punhado de clichês, mas funcionam quando jogados um contra o outro. Alguns dos melhores momentos do anime, inclusive, são quando estão interagindo e mostrando o dia-a-dia da escola, em vez dos arcos mais drásticos apresentados aqui e ali.

Sendo sincera, se eu já não fosse tão afeiçoada a esse formato de história, não sei se teria curtido tanto. Na verdade, se eu assistisse Hana-Kimi com uns 12 ou 13 anos, acharia muito “mais do mesmo”. Mas hoje em dia, gostei o suficiente dos personagens e estou confortável demais na nostalgia, então provavelmente continuarei assistindo a já confirmada segunda temporada! Infelizmente, entretanto, tenho zero esperança de qualquer melhora da produção nessa próxima etapa. Tenho certeza que o anime continuará tão saboroso e vívido quanto uma sopa de gelo… mas às vezes a gente tá morrendo de calor, né? Então dá pro gasto. Pelo menos refresca.

6.0/10

Ikoku Nikki [Mari]

Falo sem nenhum exagero que Ikoku Nikki é uma das obras mais belas que eu já assisti em toda minha vida. Yamashita Tomoko, autora do mangá no qual o anime é baseado, captura a essência humana de uma forma que poucos conseguem fazer. Ainda que o tema central de Ikoku Nikki seja o luto de Asa e também de Makio em certa medida, a história aborda diversos outros tópicos que nos afetam profundamente.

Existe, por exemplo, a relação entre Makio e Kasamachi, que não teve um final feliz dentro dos moldes de um romance tradicional, mas que se transformou com o tempo e atingiu um estágio em que ambos se sentem livres para não só viver a atração mútua como também continuar fazendo parte da vida um do outro sem que sejam pressionados por uma perspectiva de casamento ou algo assim. Neste sentido, Ikoku Nikki critica as expectativas de um modelo patriarcal ao traçar paralelos entre como Minori, mãe de Asa, achava que seu futuro seria e como ele de fato se desenhou. Entendemos o porquê o relacionamento entre Minori e Makio era tão turbulento — no fundo a irmã mais velha tinha inveja da autossuficiência da irmã mais nova, que se recusava a sucumbir ao que era considerado “normal” pela sociedade. O sonho de Minori era ser tão “livre” quanto Makio é.

A autora também aborda o processo de descoberta sexual por meio de Emiri, amiga de Asa, que desde o começo se sente incomodada com o discurso de que o futuro de toda mulher é casar-se com um homem. Emiri não entende exatamente o motivo de tanto desconforto até que conversa com Makio e recebe a indicação de um filme queer — a partir de então ela passa a examinar a si mesma, percebendo que os seus sentimentos são válidos e se permitindo explorá-los, ainda que com cautela.

Mais para o fim do anime, Ikoku Nikki aproveita para mostrar por meio de uma conversa entre Kasamachi e Touno, advogado responsável pelo caso de Asa, como o machismo afeta os homens também. Eles desabafam sobre o quão sufocante é ter que exercer determinados papéis dentro de um “pacto de homens” que, uma vez fora de tal ambiente, deixam de fazer sentido.

Apesar de ter apenas 13 episódios, Ikoku Nikki é uma obra riquíssima em detalhes e temas para se discutir. Eu fui tocada profundamente em vários momentos enquanto assistia e torço muito para que tenhamos uma segunda temporada ou até mesmo um filme que termine de adaptar o mangá. Só tenho elogios à equipe responsável pelo anime: reitero tudo o que disse nas minhas primeiras impressões sobre o trabalho fantástico da diretora Ooshiro Miyuki, dos animadores, e das atrizes de voz Sawashiro Miyuki (Makio) e Mori Fuuko (Asa). Eu ainda vou passar muito tempo pensando sobre Ikoku Nikki.

10/10

Seihantai na Kimi to Boku [Plinio]

Não sou o maior conhecedor de roteiros colegiais brasileiros, mas a sensação que tive vendo Seihantai na Kimi to Boku é similar com uma “Malhação” da Geração Z. O que mais me intriga é que eu nunca parei para refletir como os animes de vida cotidiana precisam envolver muito o recorte temporal de sua geração. A estratificação das gerações é implacável, sendo capaz de determinar o que é considerado vergonhoso por ser “coisa de velho” e o que é moda por fazer parte da realidade do seu tempo.

No anime, após a revelação precoce do casal principal, tudo se torna uma simulação de como os colegas adaptam-se à novidade. Não há drama nem conflitos, tudo na maior paz do mundo. A ansiedade se deve mais a torcida para que os outros casais deem certo, e normalmente dão. O anime é bonito e bem feito, com planejamento, marketing… É tipo o primo que se deu bem na vida e seus pais usam-no para comparar com a sua vida de m****.

9.0/10

Tamon-kun Ima Docchi!? [Plinio]

Cara, agora eu entendo como é horrível gostar de um coitado. Eu sei que Tamon apenas faz parte da dinâmica de personalidades antagônicas do grupo F/ACE, mas é difícil aguentá-lo. Pensando positivamente, Tamon é um protagonista que serve de suporte para Kinoshita carregar a história. Definitivamente foi colocado o último prego no caixão da discussão sobre a qualidade da atuação de Saori Hayami, que interpreta Kinoshita Utage em Tamon-kun Ima Docchi?. O anime é carregado pelo dinamismo da personagem ao alternar entre uma pessoa normal e uma fanática. Algumas cenas são extravagantes, e dentro dos subgêneros da comédia, o anime se encaixa mais nos tipos surreais ou escrachados.

Para além de dizer que a adaptação é apenas engraçada, deve-se muito da trama ao desenvolvimento de Natsuki na reta final do anime. Sua história é similar ao fenômeno dos Toyoko Kids, jovens que deixam seus lares devido ao abuso doméstico ou abandono parental. Apesar do anime não demonstrar o uso de substâncias ilícitas durante a adolescência, percebemos que tudo aponta para esta referência. Toda a resolução envolvendo uma personagem próxima a Natsuki é bem emocionante, digno de nota.

Pensando que são 5 personagens e 12 episódios, com pelo menos 3 episódios para cada arco, a conta simplesmente não fecha. A estrutura narrativa é conduzida para algo similar ao que aconteceu com WataNare, sugerindo que o fim do anime poderia levar a um especial envolvendo a história do último personagem, ainda que eu não veja necessidade de tocar em uma pessoa tão desinteressante.

O único ponto negativo que aponto é que vários conflitos são simples demais. Quando tenta-se criar um ambiente dramático, tudo parece muito novelesco, coisa de seriados mexicanos. Realmente o drama não é o ponto mais forte do anime (exceto no arco do Natsuki), e está tudo bem. Quando se trata da comédia, é como se Tamon servisse perfeitamente como escada, para o Fiat Uno que é Kinoshita Utage.

8.0/10

Uruwashi no Yoi no Tsuki [Lucy]

Eu juro que tentei. Desculpa, mas que preguiça.

Talvez eu seja, sim, a amiga que é woke demais. Uruwashi é como um pêndulo para mim; vai e vem no quanto eu gosto ou não dos episódios. Eu gosto que a Yoi não tem medo de estabelecer os limites dela, e que o Ichimura de fato respeita esses limites… na grande maioria do tempo. Gosto também que ambos os protagonistas têm seus respectivos grupos de amigos, e que agem de maneira realista para as idades e vivências deles… mas quase todas as interações dentro dos grupos se resumem a falar do interesse amoroso de seu respectivo protagonista. E também gosto muito de como o anime não tem problema com deixar a Yoi se vestir de maneira neutra quando está sem o uniforme, e especialmente como não força ela a passar por um “glow up” do tipo “botar uma peruca e começar a usar maquiagem”… mas a que custo, se o roteiro é tão heteronormativo que eu agora sinto necessidade de ver um bom filme queer pra limpar meu paladar?

Problema 1: Meu Deus, eu já entendi, Yoi, você tem problemas com a sua imagem, você quer ser tratada como uma garota, se apaixonar te ajudou a entrar em contato com a sua feminilidade, eu sei muito bem como é, eu vivi a mesma coisa. Mas fica muito difícil de comprar a ideia pelo jeito que ela é apresentada! Todo o valor que a menina se dá vem do ideal de ser tratada dentro dos papéis de gênero que ela quer reafirmar em si. Chega a ser frustrante depois de mais de dez episódios dessa mesma ladainha.

Junte isso com o fato de que o interesse amoroso dela incorpora tão bem o espírito da obra que ele, também, é um pêndulo. Como mencionei, gosto que ele ouve bastante ela, acho meigo que ele também esteja descobrindo novos lados de si… Mas desde os primeiros episódios, senti um enorme desconforto nas cenas em que contempla o porquê de ele se interessar pela nossa protagonista. Porque ela é bonita, claro, mas o jeito que ele fala “como que você vê uma coisa daquelas e não se interessa?” é… francamente… terrível. Como se a androginia dela a transformasse em algo além do humano, sabe? E não de um jeito bom.

Algumas cenas específicas são bem desenvolvidas e me fizeram comprar o casal com muito mais bom grado, mas tem um momento perto dos episódios finais que demonstra minha opinião exata sobre o romance: após ter um ataque de ciúmes por um outro cara que se apaixona pela protagonista — e que também usa “eu te vejo como uma linda menina” como cantada —, o namorado dela solta: “se você tivesse conhecido ele antes de mim, estaria namorando com ele agora”.

Ela fica magoada e sai correndo, mas eu concordo plenamente com ele.

Isso, inclusive, nos leva ao problema 2: Sei que é difícil manter a tensão no enredo uma vez que o casal principal começa a namorar. Entretanto, acredito que tinham muitas outras maneiras de progredir a intimidade entre eles, no mesmo passo que os dois evoluem como personagens. Em outras palavras, essa é uma história que tinha zero necessidade de ter um triângulo amoroso enfiado nela. Algumas cenas me fizeram revirar os olhos — e olha que eu sou de poucas reações físicas quanto estou assistindo algo. É complicado nesse nível.

Gostaria muito mais de ver as questões pessoais dos protagonistas sendo exploradas — a autoimagem de ambos, o perfeccionismo e a insegurança da Yoi, a criação e a família do Ichimura. Eles não parecem existir muito bem para além um do outro, especialmente a Yoi. Aparentemente, tudo o que ela faz da vida é estudar, trabalhar, comer doces e agonizar em silêncio sobre a aparência dela. E olha que não é por falta de personalidade! Ela é séria de um jeitinho bem engraçado, mas me faltou profundidade para além do conflito inicial (e central). Mas aí é aquilo, né? Acho que depois de setecentas palavras fica bem claro que isso é um bom resumo do que eu achei da obra como um todo.

Como sou meio Poliana, preciso mencionar pelo menos um positivo: no final das contas, ainda é um anime competente. Bonito em várias cenas, decentemente animado, agradável de olhar. Mas a história que ele está tentando contar me repele tanto que não consigo apreciar plenamente os bons momentos. Terminei entediada, me empurrando até a linha de chegada. E agora, finalmente, vou lá escolher um filme bom para compensar essa sensação.

5.5/10

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