Vamos problematizar? | Gordofobia e glamorização de transtornos alimentares em Watashi ga Motete Dousunda

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Esse texto foi originalmente postado em 11 de março de 2018 [Este texto é uma colaboração da leitora Caroline Gomes].
Nessas últimas semanas, um anime apareceu como recomendado no meu feed do YouTube. Por curiosidade, resolvi ver por achar o traço bonito. Lembro-me de ter assistido o 2º episódio, pois não estava tão interessada assim na história. Porém, foi surpreendente o que eu vi em apenas 20 minutos.

O nome do anime é Watashi ga Motete Dousunda (ou “Kiss Him, Not Me!”, em inglês) e de longe parece um típico anime colegial com uma protagonista fujoshi. Serinuma Kae (como se chama) é apaixonada por todos os caras, que magicamente também estão aos seus pés. Porém, em alguns momentos ela acaba por shippar esses colegas entre si porque… *motivos de fujoshi*, hehe.

Mas espere, eu disse magicamente? Existe um motivo por trás desse “crush coletivo” por ela, certo?

A protagonista é uma típica otaku (e fujoshi). Usa cabelos presos e óculos grandes, tem olhos pequenos e está sempre grudada no celular (mais especificamente numa espécie de Twitter) acompanhando os comentários dos fãs que assistem uma série, que também é a sua favorita (e claro, tem rapazes bonitos).

Ah, sim, e ela é gorda.

Enquanto assiste o novo episódio da série, ela fica tão empolgada que acaba quebrando seu celular com a própria mão e aí o seu mundo desaba. A partir desse ponto a coisa começa a ficar esquisita. Ela fica mal (por ter quebrado o celular ou por se sentir culpada por ser gorda e ter quebrado o celular? Essa parte ficou meio no ar…) e se isola como uma hikkikomori no quarto. No entanto, isso não é tudo – ela ainda fica sem comer(!) por 10 (dez) dias.

Passado esse tempo, sua mãe (FINALMENTE) intervém e seu irmão (nada parecido e gordofóbico) resolve arrombar a porta do quarto. Quando puxam seu cobertor, ambos ficam totalmente surpresos. Kae está magra, como se nunca tivesse sido gorda – sem estrias, sem celulites –, apenas mais uma típica garota magra de anime. É claro que ela apenas percebe a diferença quando se vê no espelho do banheiro, e até pensa e diz que só pode ser um novo tipo de espelho, porém logo percebe que sim, ela perdeu (muito) peso.

Kae parece absurdamente normal e saudável. Seu cabelo está arrumado, não quebradiço como acontece com quem se priva de comer. Seu rosto não está com olheiras e não demonstra nenhum cansaço. Então ela vai pra escola. Preciso dizer que o uniforme dela fica perfeito nela? E que os rapazes rapidamente ficam aos seus pés?

Como estudante de Psicologia e quase uma “nativa digital”, posso dizer que eu (e não apenas eu, mas muitas pessoas do meu círculo) já vi banalizações de transtornos mentais. É aí que quero chegar, mas dessa vez, saindo da esfera de depressão e “sad boys 1998“.

Precisamos falar de transtornos alimentares.

Acredito que esse anime, para uma garota extremamente vulnerável a grupos e comunidades pró-ana e pró-mia (apelidos para/a FAVOR da Anorexia e Bulimia), seja um grande e fortíssimo gatilho que sirva de inspiração para a mesma. Principalmente se ela tiver conhecimento da cultura otaku e assistir de vez em quando algum anime. Ela vai procurar por mais animes, mangás, HQs, séries e filmes do tipo. Logo, não só essa menina, mas várias podem pensar que: para ser amada, devo ser magra.

Não que esse tipo de pensamento não seja comum – muito pelo contrário –,  mas o anime é um reforçador para que elas continuem se matando aos poucos, se vendo como a protagonista gordinha e almejando terem o mesmo destino que a mesma teve após 10 dias MORTAIS de jejum.

Sabemos que animes assim com mudanças rápidas e radicais são fantasiosos e exagerados e não foram feitos para serem levados tão a sério assim. Mas e para as meninas com transtornos alimentares? Ou que estão à beira de os desenvolverem?

Não é apenas um gatilho, mas uma grande glamorização de transtornos alimentares. Não assisti os outros episódios por ter me sentido, no mínimo, enojada pela forma com a qual as pessoas começaram a gostar dela, mostrando um terrível desenvolvimento como personagem. Talvez ela seja uma garota legal e descolada por ser otaku fujoshi, mesmo com um pouco de vergonha por isso, mas infelizmente Kae é reduzida à magreza.

Essas meninas vão acreditar em imagens distorcidas e tentarem se moldar? Vão acreditar em traços e silhuetas finas?

Pode ter certeza que sim.

4 comentários em “Vamos problematizar? | Gordofobia e glamorização de transtornos alimentares em Watashi ga Motete Dousunda

  1. Eu realmente acho sério isso. E você nem viu todos os episódios ainda!

    Tem um capítulo (5 se não me engano) onde ela engorda rapidamente (uma noite) e volta para a sala gordinha como antes. O loiro começou a forçar ela a emagrecer e ela quase desmaiou por causa disso. Mas achou que ele se arrependeu? Se enganou. Ao contrário fez mais exercícios pra ela. Eu só gosto do senpai e do moreno e da sensei (ela aparece no 4 inclusive) que ama ela desde que a conheceu. O baixinho tambem só gosta dela pela aparência e inclusive admite isso.

    No começo do primeiro se prestar atenção vai mostrar algo perturbador. Tipo no começo o loiro começa a chamá-la de cama inflável se não me engano e toda a sala começa a rir. Mas depois que ela emagrece ele fala – Antes você era assim, sabe? – aí ela chora por lembrar de seu waifu que morreu. Porém os colegas de classe não tiram e o chamam de mal. Incrível não é? Quer dizer que só se importam se a pessoa é esbelta.
    Watashi Ga Motete é um anime gordofobico e ridículo que faz a pessoa acreditar, como você disse, que só pode ser feliz magra.

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  2. Só para corrigir o que “ficou no ar”, a protagonista, quando quebra o celular, não fica mal por ter o feito, ela fica de tal forma pois seu personagem favorito (ou waifu), Shion, morre no anime. Creio que isso poderia traze um melhor entendimento para esse post e, conseguintemente, evitar haters. Porém, não discordo em absolutamente nada do que você disse sobre gordofobia e a glamorização de transtornos alimentares.

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