Estamos iniciando a temporada de verão de 2026 com uma nova redatora na equipe: Rin! Seja bem-vinda e espero que curta seu tempo conosco! 🙂
Nesta postagem falaremos sobre nossas primeiras impressões de BanG Dream! YUME∞MITA, Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den, Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai, Sayonara Lara, Super no Ura de Yani Suu Futari, Tai-Ari deshita.: Ojousama wa Kakutou Game nante Shinai, Tenmaku no Jaadugar, THE GHOST IN THE SHELL e World Is Dancing.
BanG Dream! YUME∞MITA [Rin]
BanG Dream! YUME∞MITA vem para novamente alterar os paradigmas da franquia que já tem seus dez anos, trazendo o que diferenciou o arco anterior, mas com problemáticas diferentes, temática de vtubers, um humor bem internetês e um elenco completamente novo sem nenhuma relação visível com as personagens das temporadas anteriores. Trata-se tanto de um pequeno refresco para os fãs, quanto uma nova porta de entrada.
BanG Dream! é uma franquia que se destacou entre os fãs de animes musicais por trazer tramas diversificadas no contexto de banda de garotas, sendo a terceira temporada uma das minhas favoritas por combinar um enredo bem divertido, um pouco de drama e um foco maior nas interações entre as bandas. Mas, em 2023, It’s MyGO!!!!! chegou para dividir as águas e se concentrar muito mais em drama e relações interpessoais, sendo um grande acerto para a franquia e a minha temporada favorita até então — a sequência Ave Mujica seguiu o mesmo caminho.
Diferenciando-se de títulos anteriores que se passavam em Shinjuku, YUME∞MITA tem seu foco na famosa Akihabara. Assim garantindo várias referências à cultura otaku (incluindo um anime fictício baseado em Precure com direito à voz de Kugimiya Rie e uma música original), gírias e problemáticas que cercam o meio. Além disso, o grupo MewType formado no anime é uma banda de vtubers, com suas reuniões feitas dentro de um espaço virtual com seus modelos 3D e também com uma agência, como deixa claro a agente após gritar com elas por não lerem o contrato e saberem que se tratava de uma banda ou grupo musical. Como mencionado pela agente, o grupo foi formado pensando no valor de cada integrante e com sucesso garantido. Miyanaga Nonoka (guitarrista) é muito famosa por um vídeo viral de quando era pequena (a coelhinha Usa-Eater); Fuji Miyako, uma mangaká famosa e muito venerada por Arale; Sengoku Yuno, uma compositora muito competente e experiente adorada por Nonoka e Arale; e, por fim, a própria Arale (letrista e vocalista) não é tão conhecida como o resto da banda, mas foi elogiada por Nonoka pelos covers postados em seu canal.
“Se o melodrama das temporadas anteriores deu certo, vão seguir apostando no mesmo?” é pergunta que eu estou certa de que muitos se fizeram. Ainda não possuímos muitas respostas neste episódio, mas ficou claro de que Arale possui algum trauma por algo que aconteceu no seu grupo anterior e por isso quer evitar de toda forma cantar ou falar descontroladamente, sendo o último bem notado quando ela expõe seu entusiasmo por Yuno até deslogar de vergonha. Ao mesmo tempo que a personagem Miyako aparenta ter problemas para manter os estudos, o trabalho de mangaká e agora a banda em ordem. Entretanto, YUME∞MITA tem um tom claramente diferente dos títulos anteriores, sendo sempre bem energético, com cores vibrantes e me tirando algumas risadas com a forma que as personagens agem. Também conhecemos Ritsu e Viola, que claramente ainda possuem assuntos pendentes com Arale, com Viola se mostrando ser manipuladora e dizendo que Arale poderia causar problemas caso seja reconhecida por fãs antigos, enquanto Arale e Ritsu não conseguem dizer o que realmente queriam.
O estúdio encarregado desta vez é NICHICALINE, divisão focada em animações 2D do estúdio SANZIGEN, encarregado pelas temporadas anteriores. Apesar da mudança de estúdio, a animação ainda é bem familiar, cheia de carisma próprio e de altíssima qualidade, com direito a mudanças tonais para diferenciar os ambientes virtuais dos reais. Vale destacar o enorme primor de Bandori em mesclar elementos 3D com 2D, deixando a animação extremamente divertida e com a energia necessária que este título precisa. A direção é de Umetsu Tomomi (Na-Nare Hana-Nare, BanG Dream! It’s MyGO!!!!!), que não possui muitos trabalhos como diretora em séries, mas sempre esteve presente na franquia exercendo funções menores e também em outros títulos de slice of life e comédia. O script e a composição de série são de Gotou Midori (Kuroneko to Majo no Kyoushitsu, BanG Dream! Ave Mujica, Na-Nare Hana-Nare, Kyuujitsu no Warumono-san), outro nome bem famoso na franquia. E também gostaria de destacar o character design de Nobusawa Osamu (Mochipuyo), que não possui muitos trabalhos creditados em animação, mas que é sempre muito ativo celebrando a franquia com suas artes e trabalhos internos. As atrizes de voz do grupo são creditadas com o nome de suas personagens.
Com muitas pontas soltas e uma paixão enorme que senti pelas personagens, esta é uma estreia que me deixou extremamente animada e mal posso esperar pelo que vem a seguir!
★★★★
Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den [Ana]
— Mãe, eu quero uma nova temporada de Diários de uma Apotecária.
— Mas, filha, a gente já tem Diários de uma Apotecária em casa (Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den).
Brincadeiras à parte, até porque consigo enxergar mais diferenças do que semelhanças entre as duas obras, a premissa de Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den me conquistou logo de cara.
Trocas de corpo talvez já sejam um clichê, mas continuam sendo um recurso narrativo de que gosto bastante. Aqui, ainda, a dinâmica me fisgou por isso acontecer justamente com duas personagens completamente opostas (e essa é sempre a graça, né?). Enquanto Reirin é uma das candidatas a imperatriz do Reino de Ei e é admirada por todos devido à sua elegância e gentileza, apesar de sua saúde extremamente frágil, Keigetsu, originalmente uma das criadas da corte, é a típica vilã, consumida pela inveja e disposta a recorrer até mesmo à magia proibida para tomar o lugar da rival. Keigetsu não faz a menor questão de esconder o quanto despreza Reirin e deseja ocupar seu lugar, chegando até a ser caricato. Por um momento, ela até acredita que seu plano tenha sido bem-sucedido, mas, no fim, não consegue se livrar de Reirin de vez.
É justamente devido a essa inversão interessante de papéis e no conflito de identidades que a história mostra o seu potencial e também faz jus ao título em inglês “Though I Am an Inept Villainess” (“Embora eu seja uma vilã inepta”). Enquanto a verdadeira Keigetsu, agora presa no corpo debilitado de Reirin, precisa lidar com uma realidade completamente diferente daquela que desejava, Reirin, incapaz de revelar sua própria identidade, acaba assumindo a de Keigetsu e enxerga na situação uma oportunidade inesperada: ela finalmente possui um corpo saudável, e como sua personalidade passa longe da de uma vilã, ela própria se define como uma “vilã inapta”. E ainda preciso dizer: a bicha é bonita! Pena que originalmente é uma filha da p*ta. Agora que Reirin está no corpo dela… que fique assim mesmo.
Confesso que ao assistir aos previews do anime, eu imaginava uma palhaçada ainda maior, mas acredito que a graça acontecerá no que ainda está por vir, justamente pelo contraste entre a imagem que as personagens passam a carregar e quem elas realmente são. Ver uma protagonista extremamente gentil tendo que viver sob a reputação de uma vilã tem muito potencial de render situações divertidas. Além disso, será que alguém tão podre como a Keigetsu também será atriz o suficiente para conseguir manter essa farsa no corpo da outra? Tudo isso me deixou curiosa para acompanhar os próximos episódios.
Visualmente, a estreia também agrada bastante. O design dos personagens é bonito, a direção transmite bem o clima de fantasia da corte imperial e a animação passa uma boa primeira impressão. Soma-se a isso o fato de a light novel ter sido recentemente premiada e de a adaptação estar nas mãos do Doga Kobo, estúdio responsável por sucessos recentes e bem produzidos como Oshi no Ko. Boa parte da equipe, no entanto, vem de Gekkan Shoujo Nozaki-kun, outro anime de que gosto muito. Assim, saio da estreia otimista de que teremos uma adaptação divertida e tecnicamente consistente.
★★★★
Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai [Ana]
Para os fãs de dark yuri, temos aqui mais um candidato promissor. Acho sempre curioso como a magia, um tema tão frequente em diversas obras, pode ser representada de formas tão distintas. O visual de Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai pode até enganar por um milissegundo, mas, nos primeiros minutos da história, já somos apresentados à morte, ao sangue e ao destino brutal que aguarda essas garotas tão fofinhas.
Em um orfanato onde crianças são criadas para se tornarem soldados e enviadas diariamente para a guerra, Sheena Totsuki recebe, de maneira completamente casual, a notícia da morte de sua colega de quarto logo no início da aula. Seria de se esperar que uma notícia dessas a abalasse profundamente, mas as surpresas não param por aí. No mesmo dia, ela encontra uma garota completamente ensanguentada que, apesar disso, age como se tudo estivesse perfeitamente normal. No dia seguinte, Sheena descobre que essa mesma garota, chamada Mimi, será sua nova colega de quarto. A presença dela surpreende a todos, já que Mimi é vista quase como um mito.
A obra parece se apoiar na dinâmica entre opostos. Enquanto Sheena demonstra estar profundamente abalada com o cenário de guerra ao qual ela e suas colegas são submetidas, nada disso parece afetar Mimi. Além disso, existe todo um mistério em torno dela, desde sua primeira aparição coberta de sangue até o fato de Sheena sentir gosto de sangue quando Mimi resolve beijá-la.
É aí que entra um dos conceitos mais interessantes de Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai. Nesse universo, as personagens são capazes de se curar por meio do beijo. Segundo a explicação da obra, não se trata exatamente de um beijo, mas de uma “magia de restauração” (embora a gente saiba que essa é só uma desculpa para as garotas se beijarem). Essa magia só funciona quando as duas pessoas estão na mesma sintonia, o que, na prática, acaba sendo um beijo de qualquer forma. Ainda assim, é algo que causa certo estranhamento quando lembramos que a maioria das personagens ainda são crianças.
No geral, acredito que tenha sido uma boa estreia e, segundo os leitores do mangá, a adaptação está bastante fiel à obra original. A animação também chama a atenção positivamente, embora gere um certo receio ao saber que o estúdio responsável, ROLL2, ainda é pequeno e possui poucas produções no currículo. Fico curiosa para ver como tanto a história quanto a parte técnica conseguirão se sustentar ao longo da temporada.
★★★½
Sayonara Lara [Lucy]
Imagino que muitos passaram pelo mesmo processo que eu ao decidir se iriam assistir Sayonara Lara: “Olha que pôster lindo! Que traço charmoso! Tem como dizer ‘não’?”. Um monte de nós deve ter ido com as expectativas lá em cima… E ainda assim, o resultado foi melhor do que eu imaginava. O status da produção como projeto de prestígio já fica claro desde os primeiros segundos do episódio, que apresenta o anime como comemoração do 15º aniversário do estúdio Kinema Citrus. Para fazer jus à data, a equipe não economizou recursos: está tudo lindíssimo! Talvez seja o anime mais bonito que eu tenha assistido em anos (desconsiderando que eu tenho pego umas bombas pesadas nos últimos tempos). A animação é vívida e fluída, e a estética retrô também foi muito bem apresentada. O cuidado e atenção envolvidos são notórios, ao ponto de que a abertura possui cenas desenhadas em célula. É uma dedicação cativante e evidente no produto final, de altíssima qualidade. Super recomendo desde já aos aficionados por sakuga, animação e afins.
Para além do técnico, também estou interessada pela história. O primeiro episódio é uma versão da fábula da Pequena Sereia, porém não sei dizer se é mais fiel à versão original ou à adaptação da Disney, visto que — acreditem se quiser — não me lembro de jamais ter assistido ao desenho. De qualquer maneira, todo o esqueleto básico do conto de fadas está ali, narrado de maneira extremamente cativante até o momento em que Ariel — perdão, Lara, desperta séculos depois, no meio do Japão moderno. Ou pelo menos quase moderno; a escolha do visual anos 80/90 pode ser um indicativo de quando essa história se passa.
Minha escolha de palavras pode parecer um pouco estranha, porque o anime com certeza não perde o carisma após esse renascimento. Muito pelo contrário! A primeira impressão que temos dessa nova vida dela é talvez o momento mais engraçado da estreia. Eu gosto muito dessa subversão onde é um personagem de outro mundo que vem para o nosso, então quero ver como é que Lara vai se adaptar entre os humanos que tanto ama, porém devem ser tão diferentes daqueles que ela conheceu. Entre os possíveis conflitos em terra e a questão dramática da segurança de sua família e reino, o isekai da Pequena Sereia tem muito potencial. Espero que chegue tão longe quanto promete.
P.S.: Num parêntese muito especulativo da minha parte, já ouvi dizer que o conto original foi a maneira do Hans Cristian Andersen de trabalhar consigo o amor proibido que ele sentia por outro homem. Considerando que “encontrar o amor verdadeiro” é uma das missões principais da protagonista, e que o material promocional todo foca nela e na menina japonesa que a encontra quando ela desperta, será que está permitido começar a sonhar com algo entre essas duas…?
★★★★
Super no Ura de Yani Suu Futari [Plinio]
Confesso que acabou minha tolerância para animes bobinhos. E sim, isso é pura falta de paciência. Costumo brincar com meus colegas sobre como certos mangakás idealizam a rotina de escritório, deixando evidente que nunca precisaram encarar a realidade de uma empresa barulhenta cheia de divisórias. É uma baboseira que chega a dar gatilho em quem trabalha, mas, honestamente, exigir realismo absoluto de uma ficção talvez seja pedir demais. No caso de Super no Ura de Yani Suu Futari, a narrativa se divide entre o estresse do escritório e a tranquilidade de um mercadinho de bairro, uma premissa tão simples que basta o mínimo para funcionar.
A história acompanha Sasaki, um assalariado exausto que só encontra um propósito para o seu dia no fim do expediente, ao contemplar o sorriso de Yamada, a atendente do caixa 2 do supermercado. Nos dias atípicos, quando há excessivas demandas no escritório, ele chega tarde e descobre que o turno de Yamada já terminou. Frustrado e sem o seu “alento diário”, Sasaki decide fumar nos fundos do estabelecimento, encontrando lá uma funcionária do mercado chamada Tayama. Ao contrário da atendente angelical, ela possui piercings, maquiagem forte e uma voz grossa de fumante. Assim, nos dias comuns, Sasaki tem a presença de Yamada, e nos dias difíceis, a companhia de Tamaya.
O anime é simples, tanto na proposta como no orçamento. A aura exala mediocridade. O traço é simples e nada no anime parece servir para autopromoção. Entretanto, se observarmos as notas médias do MyAnimeList e o AniList, por exemplo, temos 8,4 e 8,3 respectivamente. O que pode justificar essa popularidade é, para além do visual de Tayama que se tornou viral nas redes sociais, o lançamento de seis episódios em adiantamento na Crunchyroll. Tal movimento para falar de um anime antes mesmo de sua estreia foi antes sentido em 2016 com ReLIFE, que teve todos os seus episódios liberados para assinantes de uma plataforma de streaming. Antes do ocorrido, ReLIFE também era tratado como mediano por sua proposta, até se tornar o único assunto no início de sua temporada.
Minhas expectativas para o anime estão bem baixas, principalmente conhecendo os trabalhos da Asahi Production (Mahou Shoujo ni Akogarete, Otonari ni Ginga), e que nenhum deles teve o devido destaque. Espero mais piadas com a voz de fumante da protagonista, um incremento na personalidade do Sasaki para além de um “tiozão cansado”, e também que apareçam mais personagens interessantes, pois focar a narrativa exclusivamente na dinâmica dos dois corre o risco de desgastar a fórmula rapidamente.
★★★
Tai-Ari deshita.: Ojousama wa Kakutou Game nante Shinai [Lucy]
Street Fighter 6 é um jogo bonito, né? Só é meio bizarra a discrepância causada quando a animação corta de meninas fofinhas jogando juntas para um CGI 3D ultra renderizado…
Mas é aquilo, todos nós temos que pagar nossas contas de algum jeito. E se essa foi a maneira que Tai Ari Deshita. encontrou para sustentar o orçamento, que assim seja! Porque até o momento, parece estar valendo a pena. Se seguir o mesmo tom que a estreia, acredito que será um anime bem agradável de acompanhar; nada extraordinário, porém divertido e bem produzido. Confesso que achei um pouco fraca a premissa de especificamente videogames serem proibidos na escola (não fazia mais sentido apenas aplicar essa regra a eletrônicos como um todo?), mas considerando o quão “direto ao ponto” todos os acontecimentos do episódio são, imagino que a autora realmente não queria pensar para muito além da dinâmica a ser apresentada. Não digo isso em tom de crítica, até porque esse não é o tipo de obra que precisa de uma construção muito delicada. Fiquei surpresa, inclusive, em como o humor funcionou comigo: é engraçado o quão exageradas as personagens são. Tudo é dramático, sem necessidade alguma para tal. As meninas se debulham em lágrimas e sangue, se colocam em risco físico pelos jogos, sempre aparentam estar com as emoções exacerbadas, agem no impulso, não importa o quanto calculem as próprias ações…
Nesse ponto, também achei bem legal a abordagem da questão da identidade social: a preocupação que a protagonista demonstra com o que acha que é esperado de si e como deve se portar. É o tipo de conflito com o qual muita gente pode se identificar, e fica mais satisfatório ainda imaginar de que maneiras ela pode superar os próprios preconceitos. Afinal, imagino que pouco a pouco, todas as suas amigas vão começar a revelar quem são de verdade para além da fachada de “donzela”, e é isso que eu espero do anime: que os relacionamentos delas se aprofundem à medida que elas se conhecem melhor, que elas descubram também mais sobre si mesmas e se aceitem como são, e que eu me divirta vendo elas se divertindo com os bonequinhos delas dando porradas uns nos outros. Como alguém que nunca foi muito fã de jogos de luta para além da função social deles numa festa com os amigos, ainda acredito que terei bastante para aproveitar aqui.
★★★
Tenmaku no Jaadugar [Plinio]
Meu trabalho é dificultado quando os primeiros episódios são enigmáticos. Nestes casos, costumo me assegurar em alguns indícios que pouco têm a ver com a história em si, como o estúdio que o produz ou obras passadas realizadas pela equipe de produção, qualquer coisa é válida para tentar prever se vale a pena ou não continuar assistindo. No caso de Tenmaku no Jaadugar, para além das primeiras impressões, é necessário confirmar um viés autoral, advindo do interesse pessoal da autora na história do império mongol, descrito assim em seu Tumblr, e que por um acaso é um gosto que compartilho. As primeiras impressões correspondem aos dois primeiros episódios, lançados simultaneamente.
A história começa na cidade de Tus, que aparenta pertencer ao planalto iraniano (antiga Pérsia), no início do século XIII, já influenciada pelo islamismo. Acompanhamos uma criança escrava chamada Sitara, que causa mais problemas do que vantagens para o mercador que a possui. Ela é utilizada como moeda de troca em uma negociação com uma família de acadêmicos, prometendo-a estudos para melhorar sua personalidade. Com auxílio de Muhammad, o filho prodígio da família, Sitara recebe o melhor dos incentivos e se vê entusiasmada com a educação. Ela passa a gostar de Muhammad, e ambos nutrem um sentimento mútuo, já que possuem idade próxima e desenvolveram certa intimidade. A partir de um convite para estudar na cidade grande, Muhammad se despede de Sitara e promete que voltarão a se ver no futuro. Com o passar dos anos, Sitara cresce sendo uma pessoa melhor, que trabalha pelo bem da família, até que certo dia um exército estrangeiro invade a cidade causando destruição total e retornando os sobreviventes ao estado de escravidão. Sobrará alguma esperança para Sitara continuar vivendo?
A primeira impressão é a visual. A cena de abertura lembra aqueles curtas de animação nomeados ao Oscar, todos sempre conceituais e que são alegados de valor artístico. Quando falamos de Science Saru (Heike Monogatari, Inu-oh, Eizouken ni wa Te wo Dasu na!), a qualidade se justifica. O estúdio já é associado com obras mais artísticas do que apelativas, por isso podemos afirmar que não há nada inesperado. Outra forte impressão é a cultural. Vivemos em um país de tradições e influências cristãs, e mesmo com nosso viés pela cultura japonesa, somos praticamente inertes ao animismo dos youkais ou a ideia dos kami. Quando somos introduzidos aos costumes e cotidiano da cultura islâmica, parece que estamos entrando em um ambiente um pouco mais inóspito, por puro preconceito acumulado por anos de islamofobia estrutural. Outro ponto importante é a menção histórica. A matriz curricular básica de história que temos na nossa educação é afunilada para compreender a origem do Brasil e dos “valores ocidentais”. O mais próximo de Oriente que chegamos a estudar são as batalhas gregas contra a Pérsia, e eventualmente a conquista de Constantinopla. É bem provável que, tal como vários animes históricos, o principal valor de Tenmaku no Jaadugar torne-se um conto sobre uma história esquecida pelo Ocidente, sobre um império que quase conquistou a Europa se não fosse por uma morte inesperada.
Eu não sou a pessoa ideal para comentar o protagonismo de mulheres na ciência, uma vez que alguns associam o tema do anime à Chi. – Chikyuu no Undou ni Tsuite, mas julgo que se este for um tema importante da história, ao menos nos dois primeiros episódios isso sequer foi bem trabalhado. Ao que tudo indica, o protagonismo de Sitara está mais direcionado para a temática de Kusuriya no Hitorigoto, o que não reduz seu propósito. Com Naoko Yamada (K-ON!, Koe no Katachi, Liz to Aoi Tori, Heike Monogatari) chefiando a direção do anime, acredito que a produção está em ótimas mãos.
★★★★½
THE GHOST IN THE SHELL [Rin]
THE GHOST IN THE SHELL é certamente um nome que eu não esperava ouvir novamente num projeto completamente novo de animação, ainda mais numa série com tanto investimento assim. A esse ponto, acho que é sensato dizer que o filme original de 1995 é um clássico cult dos animes, com design e animações muito característicos de sua época e enredo que ainda é muito pertinente e importante.
A primeira coisa a se notar é que a nova animação de THE GHOST IN THE SHELL chega extremamente confiante, com uma apresentação de encher os olhos de detalhes, elenco muito bem resolvido e cores vibrantes — fazendo um contraste em relação ao filme de ‘95. Essa nova série segue um design bem mais próximo do mangá original, e é realmente um deleite para quem é fã de animes antigos e de deixar qualquer um de queixo caído.
Não tenho tantas expectativas em como o anime quer resolver seus problemas políticos, nem planejo analisar isso explicitamente nesses textos de impressões, mas com certeza é muito legal começar um episódio e as personagens estarem falando de problemas atemporais da sociedade, disputas de mercado, relações internacionais e mencionando “socialismo”. Até que a ciborgue Motoko chega para acabar com o assunto e sai farmando mais aura do que nunca. Após isso é explicado que ela estava cumprindo uma ordem de assassinato no local e agora está propondo a criação de um esquadrão especial para crises junto à segurança pública. Cortamos rapidamente para o primeiro trabalho da Major num Centro de Ajuda para crianças órfãs onde elas estão sendo vítimas de trabalho infantil, condições de vida precárias e opressão, relatos dizem que possuem um Controlador de Almas. Numa ótima sequência de ação e uma bela de uma bagunça deixada para trás, a equipe e Motoko conseguem recuperar a chave de invasão e o Controlador de Almas.
Estou muito animada para ver o que esta série terá a oferecer. Por enquanto a ótima animação e as belíssimas cenas de ação são o bastante para me deixar entretida, mas o enredo ainda precisará de bastante trabalho e é o que me deixa mais curiosa daqui para frente.
★★★
World Is Dancing [Mari]
A primeira coisa que eu pensei quando comecei a assistir World Is Dancing foi “minha nossa, que anime bonito!” em absolutamente todos os sentidos da palavra. Adaptado pelo estúdio Cygames Pictures (“Cypic”), que vem de trabalhos fantásticos como Apocalypse Hotel e Hikaru ga Shinda Natsu, World Is Dancing é um espetáculo visual. A animação é fluida, com cores vívidas e algumas escolhas artísticas que fogem do tradicional. Dá para sentir o cuidado que os animadores tiveram com cada cena, cada corte, e o quanto eles certamente estão se divertindo com este trabalho. World Is Dancing é a verdadeira descrição de arte!
O anime conta a história de Oniyasha, um jovem garoto que apesar de ser filho de um ator de sarugaku — forma de teatro cômico e acrobático popular no Japão entre os séculos XI e XIV — em ascensão, não entende por que as pessoas dançam. Aves foram “feitas” para voar; peixes foram “feitos” para nadar; e os humanos? Será que nossos corpos foram mesmo desenhados para dançar? Oniyasha é constantemente assombrado por esse questionamento e, por não conseguir encontrar uma resposta que o satisfaça, ele não se sente motivado para aprender a arte do pai.
Embora em um primeiro momento possa parecer que Oniyasha é apenas uma criança imatura, a pergunta que ele se faz tem implicações históricas e culturais. Desde que o mundo é mundo as pessoas buscam por alguma forma de entretenimento — em meio às guerras e à fome, às vezes uma pequena injeção de serotonina é tudo que temos para nos manter sãos. Isso era verdade em 1374, momento em que World Is Dancing se passa, e continua sendo verdade em 2026. As formas e as mensagens podem mudar, mas a motivação é sempre a mesma: simplesmente não há sociedade que sobreviva sem nenhum tipo de arte.
Oniyasha começa a desenvolver essa percepção já no segundo episódio — que talvez tenha sido o episódio mais dolorosamente belo que eu assisti nos últimos anos — ao entrar em contato com pessoas que não fazem parte de seu convívio. É, então, que ele se dá conta não só da importância da arte, mas também indaga: o que torna uma dança “boa”? O que ele precisa fazer para ser “bom”? A realidade que ele tem de encarar é duríssima, porém é depois dessa série de acontecimentos que ele decide se doar de corpo e alma à arte.
Estou ansiosíssima para acompanhar a trajetória de Oniyasha e descobrir como que ele transformou o sarugaku no que posteriormente ficaria conhecido como Nō, uma das formas mais clássicas de teatro musical japonês praticada até os dias de hoje.
World Is Dancing é dirigido por Kuroyanagi Toshimasa, que foi responsável pela adaptação de um dos meus animes favoritos da vida, Fune wo Amu, e mais recentemente trabalhou no carismático Bakuten!!. Devo admitir também que a roteirista Kawamitsu Sawako me deixou levemente intrigada por não possuir nenhum trabalho creditado em seu nome até então, mas por enquanto não tenho motivos para reclamar dela. Por fim, vale destacar a qualidade do character design de Sasaki Keigo, que talvez evoque algum sentimento de familiaridade naqueles que assistiram Uma Musume: Cinderella Gray, Fugou Keiji – Balance:Unlimited e Boku dake ga Inai Machi, por exemplo. O cara é o bichão mesmo, viu?
Afirmo com tranquilidade que, se World Is Dancing seguir com a qualidade apresentada nos dois primeiros episódios até o final, teremos um forte candidato a anime do ano aqui.
★★★★★