Impressões finais: temporada de verão (2026)

Se tem uma coisa da qual não podemos reclamar é falta de anime bom para assistir. Só nessa temporada de verão tivemos vários! Confiram nossas impressões finais de BanG Dream! YUME∞MITA, Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den, Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai, LIAR GAME, Sayonara Lara, Super no Ura de Yani Suu Futari, Tai-Ari deshita.: Ojousama wa Kakutou Game nante Shinai, Tenmaku no Jaadugar, THE GHOST IN THE SHELL, World Is Dancing e Yomi no Tsugai.

BanG Dream! YUME∞MITA [Rin]

BanG Dream! YUME∞MITA: Uma coleção de boas sequências e ideias com ótimas músicas e visuais que trouxeram uma variedade muito divertida e um pico de energia que eu nunca havia sentido antes em um anime, mas que acabou se tornando uma montanha-russa de emoções e, infelizmente, não passou a sensação de ser um pacote completo.

Uma franquia sobrevive assumindo riscos; esta nova iteração de BanG Dream! traz uma nova história que, apesar de não ter relação direta com obras anteriores em enredo, tenta combinar o clima de boas vibes dos primórdios da franquia com o clima melodramático das tramas recentes, o que desde o início eu achei uma ideia muito interessante por gostar bastante de ambos os estilos narrativos. Adicionando o contexto de VTubers e um novo inimigo novo na franquia, o poder da internet, tivemos um resultado: foi uma experiência que eu amei! Todo o caos que as personagens causam é algo que combinou muito com as personalidades delas.

Também vale ressaltar que as garotas da banda da vida real Mugendai Mewtype realizam shows ao vivo e são VTubers de verdade! Elas fazem transmissões ao vivo em seus canais do YouTube, o que representa uma expansão da franquia e uma grande proximidade com os fãs. É importante lembrar que o anime é ficção e possui liberdades criativas; as pessoas reais são separadas de suas personagens na história.

Agora vem a parte que eu vou me contradizer um pouco: as mudanças de momentos animados e dramáticos são, em geral, muito abruptas. De cabeça consigo enumerar dois ou três episódios que conseguem ter uma boa constância e serem satisfatórios, mas por uma boa parte da série é bem comum sentir uma estranheza quando você vai de uma cena dramática para uma super energética, muitas vezes no mesmo episódio, o que acaba também deteriorando o ritmo da história. Além disso, a internet ser inicialmente indicada como um verdadeiro vilão da trama é muito interessante, principalmente como achar que tudo que está na internet é real e como isso causa ansiedade e medo de qualquer opinião alheia. Entretanto, eu senti que o desfecho dessa problemática não foi muito satisfatória, sendo bem simples e passando pouca emoção.

Onde YUME∞MITA acertou em cheio foi em personagens, músicas e muita, mas muita personalidade! A série inteira é extremamente bem animada e minuciosa, as expressões faciais e brincadeiras de mistura de 2D-3D deixam divertida a simples ação de passar quadro a quadro. Perdoem-me a palavra porque estou dizendo isso como uma coisa extremamente positiva, mas dado o tamanho capricho que a produção colocou aqui, eu só consigo chamar de pervertido! Encerrando as minhas opiniões de apresentação visual, o anime também estreou diversas músicas originais com quatro delas mais a abertura sendo completamente animadas em 3D com capturas de movimento e dignas de se deixar em replay. E, por fim, as personagens que definitivamente tomaram para o show para si e fizeram o que bem entenderam.

Viola é a melhor antagonista da franquia e uma das minhas favoritas do ano!

Finalmente falando de umas das estrelas do show: a antagonista desta história. Viola é uma personagem que eu não acreditava que teriam coragem de desenvolver da forma que fizeram, uma vilã que é verdadeiramente má, super manipuladora e acredita que fez o que era necessário acima de tudo, ao mesmo tempo em que ainda demonstra ser bastante humana e profunda. O combo de Viola mais a capacidade de manipulação da internet adicionou uma camada extremamente engajante nesta temporada e me deixou muito imersa no enredo, ainda mais agravado pelos feitos da Viola, que mexeram com pessoas vulneráveis sem remorso algum. Só é uma pena que essa construção acabou não brilhando o tanto que poderia por causa da falta de consistência no clima da série, mas não ofuscou o impacto da personagem e adoraria ver esse conceito sendo mais explorado.

Por tudo isso, eu vejo o anime como o mais divisório da franquia até então, pela quantidade de ideias diferentes apresentadas, que infelizmente não culminaram em um pacote completo, seja por sua falta de consistência, tempo de tela para uma construção ideal ou conflitos de ideias. De qualquer forma, vale muito a pena experimentá-la justamente por esse diferencial e produção de ponta que me garantiram muita diversão, ótimas risadas e engraçadas teorias enquanto acompanhava semanalmente.

8.0/10

Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den [Ana]

É aquele ditado: a grama do vizinho é sempre mais verde. Quem diria que Keigetsu se arrependeria do que fez depois de achar que quase iria de arrasta no corpo frágil de Reirin? Também é aquele outro ditado: aqui se faz, aqui se paga. Embora, no fim das contas, a verdadeira vilã nem fosse ela. Mas vamos por partes…

Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den tem seus altos e baixos. Visualmente é muito bonito, com uma boa ambientação na China Imperial, e o Doga Kobo realmente fez um ótimo trabalho com a animação. A premissa da troca de corpos entre duas personagens com personalidades tão opostas continua sendo ótima, embora sua execução tenha algumas ressalvas.

A começar pela protagonista: Reirin é perfeita até demais. A gente entende que ela é uma pessoa genuinamente boa e que a intenção é deixar óbvio para quem a conhece que aquela não é Keigetsu. Mas esse excesso de positividade, sem nunca se irritar e mantendo sempre a personalidade extrovertida, acaba tirando um pouco da sua humanidade. Ainda assim, gosto muito da apresentação de dança e do treinamento com o arco, mesmo que ambos beirem o “olha só como ela é incrível e capaz de tudo”.

Outro ponto é a discrepância no tempo de tela entre as duas. Keigetsu tem nuances interessantes: ela erra, se arrepende, tenta cooperar, mas sem perder sua personalidade. No entanto, passa boa parte da história trancafiada dentro de um quarto, o que acaba sendo quase um desperdício de potencial.

E, por fim, o restante do elenco… Leelee é uma personagem que se destaca, pois tem um desenvolvimento que faz com que nos importemos com ela. A Imperatriz e a Shu Gabi também são boas personagens que poderiam, inclusive, ter sido mais exploradas. Agora, o resto… O que é esse príncipe? Se a intenção era fazer a gente acreditar que existe alguma química entre ele e Reirin, o resultado passou longe disso.

Preciso comentar, com um breve spoilerzinho do final, que as trocas frequentes de corpo como resolução final foram algo que eu não esperava, mas achei engraçado e gostei da “travessura” que isso acrescenta à personalidade de Reirin. Gosto muito do detalhe da cor dos olhos sempre mudar de acordo com quem está no corpo. Embora não faça muito sentido, é um recurso visual que ajuda a identificar imediatamente quem está ali.

Apesar dos pesares, Futsutsuka na Akujo dewa Gozaimasu ga: Suuguu Chouso Torikae Den foi divertido de acompanhar. A interação entre Reirin e Keigetsu tem potencial e acredito que será mais explorada na próxima temporada. E, mesmo que não houvesse uma próxima temporada, o arco apresentado já tem uma conclusão bastante satisfatória.

8.0/10

Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai [Ana]

Preciso dizer que o começo de Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai não havia me convencido muito e eu não estava com grandes expectativas, mas, felizmente, elas foram superadas. Acredito que um dos acertos da obra foi não deixar a narrativa centrada apenas em Sheena e Mimi, como eu havia imaginado que seria, embora também tenhamos pagado um preço por isso.

A dinâmica entre Sheena e Mimi é boa. Elas têm personalidades opostas: enquanto Sheena é uma pessoa tranquila e cuidadosa, Mimi chega a ser quase irritante e infantil. Essas diferenças tornam a relação interessante, mostrando como ambas se importam uma com a outra à sua maneira e como esse vínculo se fortalece gradualmente. No entanto, as mesmas diferenças também acabam gerando atritos em alguns momentos, como quando Mimi não quer que Sheena desperdice sua energia treinando magia de cura.

Acredito que o anime ganha uma camada a mais de profundidade quando Ari e Seiran também passam a ter mais tempo de tela. É até difícil comentar sem dar um grande spoiler para quem ainda não assistiu, mas, bem, é de se esperar que, em uma escola onde as estudantes são constantemente enviadas para o campo de batalha, exista uma grande red flag envolvendo alguma delas. Gostei de como Kimi ga Shinu made Koi wo Shitai trabalhou o luto de maneira bastante delicada. Mostrar a relação entre elas em retrospecto e fazer a alteração no trecho da música de abertura foram decisões bastante elegantes. No entanto, são escolhas que nos fazem sofrer até o último episódio, ao evidenciar o quanto aquela relação era importante para as duas e como é difícil voltar ao “normal” depois que alguém que amamos parte.

Alguns pontos, no entanto, ainda são um pouco frustrantes, como a falta de uma exploração maior do universo em que estão inseridos. Mesmo depois de todos os episódios, acabamos por não saber muito por que existe uma guerra e quais são as motivações por trás dela, ou até mesmo por que existe um orfanato em que crianças e adolescentes que usam magia são enviadas para essa guerra. E, embora também não saibamos muito sobre o funcionamento da magia nesse universo, continuo gostando da premissa de utilizar a magia de cura por meio de beijos.

Por fim, a animação se manteve consistente ao longo dos episódios. Ainda que tenhamos tido mais cenas de slice of life do que momentos de ação propriamente ditos, não vejo isso como um ponto negativo, já que entendo que a intenção era dar mais espaço às relações entre as personagens do que às cenas de combate. Algo que também me deixou um pouco frustrada foi o final em aberto. Não faço ideia se teremos uma segunda temporada, mas, com certeza, seria algo que eu assistiria.

8.5/10

LIAR GAME [Lucy]

Se você é leitor de longa data da página, deve já saber que eu adoro uma galhofa. Eu me divirto fácil com coisas que se levam a sério apesar de premissas irreais, que sabem que são exageradamente dramáticas, que abraçam plenamente o que possuem de camp. Logo, é claro que eu me diverti vendo LIAR GAME, até mais do que eu esperava!

Tem bastante coisa que eu poderia apontar de problemático aqui: a animação tem uma certa inconstância que eu não sei se fui eu que me acostumei, ou se foi a qualidade que realmente melhorou no último arco. A misoginia sistêmica que permeia a narrativa (sério, como pode a gente só ter duas personagens femininas relevantes? Sendo que uma é uma porta e a outra é produto de sua época ao ponto de ter sido misgendered em algumas traduções). A quantidade de situações que se resolvem com os personagens simplesmente falando o que fizeram, em vez de mostrá-los em tempo real. O ritmo frenético dos episódios numa busca de conseguir encaixar todas as informações necessárias no tempo permitido…

A segunda metade do anime, inclusive, expõe esse último problema de maneira escrachada: o formato de death game dessa obra funciona melhor com jogos curtos. Ao ponto que a partir de certa altura, passei a assistir ao anime em blocos: acompanhar semanalmente essa parte foi bem mais maçante, devido ao ritmo mais cauteloso, e, especialmente, às inúmeras regras e estratégias sendo modificadas a cada 24 minutos… Ficou mais fácil quando tomei essa decisão, de fato, mas imagino que cansou bastante gente que tenha optado por seguir acompanhando semanalmente.

O mais importante é que entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Tem coisas bem piores por aí, até porque eu acredito que um dos piores crimes que uma obra pode cometer é ser chata. Um anime ruinzinho, até vai, dá pra continuar. Mas um enfadonho, jamais, e é isso que elevou LIAR GAME em meus olhos: ele não tem medo de parecer que está inventando ideia. Não é uma obra-prima, mas imagino que tenha sido bem criativo na época. Diria que conseguiu sobreviver à passagem do tempo, apesar de mostrar sua idade.

Para fãs do gênero psicológico, é um prato cheio. Para fãs de comédia, também. Para mim…

Eu ainda não decidi se vou ou não ver a segunda temporada. Faça igual aos protagonistas e deduza meu próximo passo de acordo com as informações que dei até aqui.

6.0/10

Sayonara Lara [Lucy]

Em breve.

Super no Ura de Yani Suu Futari [Plinio]

Assistir anime é uma batalha contra a estatística. As maiores proporções serão sempre de consumidores de filmes, seriados e novelas. Dentro do seleto grupo dos fãs de animações japonesas, há uma maior ocorrência de adeptos de obras infanto-juvenis (muitas vezes por pertencer à faixa etária), que envolvem fantasia, torneios de combate e romances escolares. Histórias focadas na interação entre adultos é uma das sub-representações dos gêneros de anime que causa um impacto positivo SEMPRE que a proposta é apresentada. Então chegamos na realidade onde pode-se acabar caindo de paraquedas em Super no Ura de Yani Suu Futari, ancorado tão somente nesta premissa, ou também, quem saiba, na ruiva gostosa.

A interação entre Sasaki e Tayama ocorre do outro lado de uma divisória nos fundos do supermercado, representando a união dos lados informais do trabalho de escritório e do comércio. Durante um longo ano, Sasaki revela seu lado frágil à Tayama, que age como uma psicóloga um tanto sádica, representando muito bem o Supermercado S. Trata-se de um slice-of-life com comédia romântica que busca impactar o espectador com interações cômicas entre um rapaz de 45 e uma garota de 24. A idade é apenas mais uma das diversas contradições na qual os personagens são descritos. Uma gerente com aparência de carrasca mas que ama romances bobinhos, um entregador grande e forte que possui dificuldade de se socializar, a atendente recatada que se torna uma femme fatale ao fim do expediente — tudo indica que essas estranhezas servem apenas de alívio cômico, utilizando muito bem a quebra de expectativa. E mesmo sabendo da intencionalidade da obra, não consigo digerir um personagem tão bobo quanto Sasaki.

Não sou um crítico de age gap entre adultos, até porque julgo que as motivações são geralmente bem válidas na maioria dos casos, principalmente sobre a busca da maturidade no parceiro, algo que Freud também explica. Por isso, acredito que Sasaki trabalha contra todo o marketing do anime e tenho uma solução para o problema. Em mais de um caso, passando por cenas dubladas em inglês, notei que elas eram mais amenas do que em japonês. Talvez grande parte da minha raiva com Sasaki deva-se ao abuso excessivo de onomatopeias ou simplesmente a voz aguda sempre que era provocado por Tayama, como se o mesmo fosse um velho coitado.

É preciso voltar para minhas impressões iniciais e comentar sobre a parte do cigarro. Não se trata de um elefante na sala, uma vez que o aviso está presente no título da obra, porém era de se esperar alguma abordagem sobre o tema, o que não acontece. Poderia haver um tom informativo e narrativo, como feito em Kamiina Botan, Yoeru Sugata wa Yuri no Hana, porém o que há é um apelo passional sobre o ato, como se houvesse uma atração pessoal do autor por pessoas fumantes e seu jeito elegante. A parte do escritório continua sendo uma fonte de vergonha alheia, mas com o andar dos episódios, vamos nos acostumando com a caricatura feita do ambiente.

Enfim, não enxergo nada de especial no anime, e não foi por falta de vontade. Tendo a julgar que o viés de muitos espectadores em consumir obras fora de sua zona de conforto traz uma falsa percepção de qualidade e singularidade. Podemos dizer que o sucesso do anime se deve ao título da obra e ao design de personagens, que atraiu um público sedento por algo que já temos há tempos. Bem, pode até ser que “gostosas adultas” não seja um tema tão frequente, não significa que só porque algo é raro que é automaticamente bom.

7.0/10

Tai-Ari deshita.: Ojousama wa Kakutou Game nante Shinai [Lucy]

Apesar da roupagem de “meninas fofas fazendo hobbies“, não se deixe enganar por Tai-Ari deshita. como eu fiz: isso é um anime de esporte. E tal como todo anime de esporte que se preza, ele usa e abusa do poder dos três A’s essenciais ao gênero: Amizade, Autismo e Atração Homossexual. Por isso que deu tudo certo.

Piadas à parte, eu estava com medo de não conseguir acompanhar ou me envolver muito com as ambições das personagens, já que a cena competitiva não é algo que eu tenho muito conhecimento sobre. Ou pior ainda, temia ter que aguentar diversas cenas delas jogando um jogo com o qual eu me importo muito pouco… Mas é com alívio que anuncio que isso não foi problema. As partidas foram narradas de maneira interessante o suficiente para prender um leigo como eu.

(Reconheço, entretanto, que isso pode na verdade ser um problema para quem é realmente fã de Street Fighter e espectador fiel da EVO: imagino que muitas das coisas retratadas beiram o absurdo, não fariam sentido na vida real… o que é também a marca de alguns animes de esporte bem divertidos, reforçando meu argumento. Ainda assim, fica a ressalva.)

Os pontos altos do anime são aqueles que eu já havia mencionado nas primeiras impressões: ele tem um ritmo gostosinho, e uma direção de arte muito bem empregada para expressar a mentalidade das personagens. As diferenças de estilo de acordo com as jogadoras foram bem encaixadas, e os diretores souberam usar isso de maneira consistente. Trouxe uma criatividade muito bem-vinda, porque como comentado acima, esse é um anime que poderia ficar monótono com muita facilidade.

A meu ver, foi isso que carregou a obra, porque o texto em si não é nada de extraordinário. Os primeiros episódios demoraram um pouco a engrenar o ritmo, mas formaram a base necessária — o relacionamento entre as personagens — para dar ao arco de torneio o fôlego que a história estava precisando. Falando nesse aspecto, apesar da tag “yuri”, esse é mais um daqueles “yuri sem romance” que estão em alta ultimamente (Seiyuu Radio no Ura Omote e Hoshikuzu Telepath são alguns que resenhei nos últimos anos, por exemplo). O tipo de história que além de não ter explicação hétero, usa propositalmente linguagem visual típica de romances, mas sem ir às vias de fato nos diálogos. Por exemplo, uma das protagonistas declarando “quero ser sua número um”, de mãos dadas e olhos nos olhos da outra, é sobre a rivalidade unilateral que possui com ela. Nosso caso de “devoção ao ponto da obsessão” é apresentado como uma menina querendo agradar a garota com quem ela quer apenas fazer amizade. É decepcionante pra quem vai esperando algo a mais pela classificação do gênero — como ocorreu comigo nesses casos que citei algumas linhas atrás — mas como dessa vez já estava preparada, consegui aproveitar o que temos aqui.

Pra você ver. Nem dói mais.

Fechando essa tangente, posso afirmar que Tai-Ari deshita. foi uma surpresa, no final das contas. Eu certamente não esperava me divertir tanto, e acabou sendo uma obra redondinha, apesar de bem descompromissada. É bem apresentada, tem um desenvolvimento satisfatório, e quase chegou a dar um gostinho de “quero mais” no final. Aceitaria um Round 2 tranquilamente.

7.0/10

Tenmaku no Jaadugar [Plinio]

A expectativa é um veneno poderosíssimo, capaz de ludibriar a visão e criar uma ilusão do que se espera de um valor intrínseco, como uma miragem no deserto que é o reflexo da maior vontade do sitibundo. O melhor de se colocar suas primeiras impressões em palavras é que torna-se real um retrospecto mental, contaminado por expectativa, e que serve de atestado para justificar uma falha pessoal. Resumindo, eu falhei em esperar de Tenmaku no Jaadugar uma espécie de novo Kusuriya no Hitorigoto, e isso foi suficiente para contaminar grande parte da minha experiência com este anime. Felizmente, o diagnóstico chegou a tempo da remediação, e espero externalizar sentimentos dignos desta obra.

Minha impressão majoritária considerando todos os episódios da série era a de que eu estava vendo um documentário. Do mesmo jeito que uma equipe cinematográfica seria impedida de agir quanto a uma cena de predação naqueles documentários de vida selvagem, a atitude de Fatima parecia surtir pouco efeito na história, quase como um narrador-observador. Era como uma antítese ao tipo de personagem que eu esperava dela. Existem dezenas de justificativas para isso, afinal, a história se baseia nas intrigas palacianas (ou Urguuanas) que existiram durante o curto tempo de duração do Império Mongol, e esperar que ela agisse contra os acontecimentos ocorridos seria uma afronta a ideia de “anime histórico”.

Não foi a primeira tentativa do estúdio Science SARU com uma adaptação de obras históricas, uma vez que Heike Monogatari se trata de uma releitura dos acontecimentos das Guerras Genpei, humanizando os integrantes do clã Taira em contradição aos relatos heroicos e inumanos que eram veiculados por transmissão oral da história na época. Entretanto, é de se esperar que, com auxílio de uma mangaká especialista em história do Império Mongol, a adaptação da história seja mais acurada e fidedigna, induzindo a obra novamente para uma vertente de documentário, ainda que o visual seja cartunesco e seus personagens sejam caricatos.

Mesmo que eu estivesse cada vez mais convencido de que eu estava esperando do anime algo que ele não iria entregar, me encucava o termo “A Witch in Mongolia” presente no subtítulo em inglês da obra. Ignorando a possibilidade de erro por parte da localização do título, uma particularidade tamanha dada a uma personagem como Fatima parecia superestimá-la demais. As bruxas e a sua perseguição foram um reflexo de uma sociedade patriarcal sob ameaça de poder. As mesmas capacidades executadas por mulheres eram desempenhadas por homens, que recebiam títulos como sábio ou mago, termos mais prestigiados. Era de se pensar então que o conhecimento que Fatima possuía uma hora teria que ser usado ativamente na história. Foi então que, numa jogada similar ao que Vinland Saga utilizou em sua primeira temporada, o anime revela que Fatima e Toregene se tornarão as bruxas que devastarão a Mongólia, decretando uma temporada inteira como um prólogo de algo muito maior.

Escolhi não contar sobre as histórias dos outros personagens aqui, pois, apesar da história ser inerte às atitudes de Fatima, grande parte do entretenimento que um documentário pode proporcionar está atrelado com ensinamento de temas de desconhecimento do espectador. Sendo uma obra que eu recomendo, seria contraproducente revelar toda a trama de um acontecimento do século XIII. Pesquisando um pouco para este texto, descobri que a etimologia de Fatima pode sugerir-se a “aquele que se abstém”, ao mesmo tempo que também pode significar “aquele que se separa do maligno”. Se ocorrer de acontecer uma segunda temporada, “Fatima” pode ser a definição perfeita para ambas as metades.

9.0/10

THE GHOST IN THE SHELL [Rin]

THE GHOST IN THE SHELL: Uma das minhas grandes surpresas deste ano, com certeza, foi ficar sabendo que GHOST IN THE SHELL teria uma nova adaptação em anime feita pelo Science SARU, que vem numa crescente nos últimos anos. Tendo assistido somente ao filme de 1995 há uma década eu fiquei animada para vivenciar essa história novamente, que me deixou muito impressionada com visuais e o espetáculo das cenas de ação, mas que decepcionou com um enredo subdesenvolvido que falha em ser engajante.

Eu não li o material original, então vou me abster de comparações neste texto; o que posso dizer é que amei o estilo artístico e principalmente as cores desta adaptação. Todas as cenas no anime são extremamente bem detalhadas e coloridas, até os efeitos dos quadros levemente tremendo e artefatos característicos de sinal de TV analógica são carismáticos. THE GHOST IN THE SHELL dá um show nas inúmeras cenas de ação ao ponto que era difícil desviar o olhar. Como a série usa um formato que remete um pouco a uma estrutura episódica (apesar de não ser por conta dos fatos serem cronológicos), ela é perfeita para roubar o olhar de qualquer um, não sendo necessário estar por dentro do que aconteceu nos episódios anteriores para aproveitar. Um grande destaque também foram os momentos cômicos que combinaram perfeitamente com o estilo de arte e ritmo acelerado do anime. Chega até a ser engraçado como uma adaptação de um mangá que já tem duas décadas pode ser tão contemporânea com as tendências de mídia de consumo rápido e é realizada brilhantemente com picos constantes de adrenalina.

Sobre as personagens do anime, sem sombra de dúvidas a grande estrela é a Kusanagi, sendo ela o centro de quase todas as cenas de ação e uma boa parte das cenas mais cômicas pelo seu jeito meio brincalhona e sarcástica. Eu senti que o resto de sua equipe acabou não tendo a atenção devida para serem muito marcantes. Consigo pelo menos ressaltar bons momentos do Togusa, Batou e dos queridíssimos Fuchikoma, que me proporcionaram ótimas gargalhadas. Mas no geral, sinto que o anime teve que encurtar muito o tempo de tela de personagens secundários e antagonistas da trama em favor de ser mais dinâmico e encaixar nos dez episódios da série.

Infelizmente onde a animação mais me decepcionou foi em história. A escolha de ritmo acelerado, grande destaque em cenas de ação prolongadas, comédia e somente dez episódios deixou os momentos restantes para explicação do enredo muito rasos e difíceis de entender. Boa parte do worldbuilding do anime é realizado com rápidas cenas de conversa entre autoridades dos países envolvidos e de textos na tela por alguns segundos explicando eventos desencadeados pelas missões lideradas por Kusanagi. Isso adicionado a explicações filosóficas nos episódios finais que duram mais de cinco minutos contínuos acabou tornando difícil de engajar com uma história que depende muito de detalhes para ser entendida, sendo que a forma utilizada para contá-la foi extremamente dificultosa para guardar informações, fazendo parecer que se esperava que o espectador já tivesse esse conhecimento prévio para poder aproveitar essa parte da obra, o que não é errado, mas que é um grande contraste com a outra adaptação do estúdio nesta temporada – Tenmaku no Jaadugar.

No geral, eu achei THE GHOST IN THE SHELL muito divertido e, mesmo que não me deixasse muito interessada no seu enredo, conseguiu me manter entretida pelo belíssimo estilo visual, cenas de ação e de comédia de ponta do estúdio Science SARU. No entanto, a falta de mais tempo de desenvolvimento da história e do mundo tornaram difícil de lembrar os detalhes e assim se engajar mais com a obra, porque após o término do anime só se falava em outra coisa.

7.0/10

World Is Dancing [Mari]

World is Dancing teve um início avassalador. Me arrisco a dizer, inclusive, que o episódio em que Oniyasha conhece e interage com Shirabyoushi, interpretada pela talentosíssima Miyuki Sawashiro, é não só o melhor do anime, como também um dos mais marcantes deste ano. Oniyasha tem muitas perguntas: por que as pessoas dançam? O que define uma dança como “boa”? O que ele precisa fazer para brilhar tanto quanto Shirabyoushi? As respostas que ele encontra no decorrer da história nem sempre são satisfatórias ou conclusivas, mas ele nunca desiste de tentar.

Eu sinto que World is Dancing tinha muito a dizer sobre o poder transformador da arte tanto em um âmbito pessoal quanto social. A obra aborda os problemas enfrentados pelas pessoas da época, com conflitos entre classes visíveis, e a posição de privilégio na qual Oniyasha se encontra. Nós acompanhamos de perto a trajetória desse garoto que até então vivia em uma bolha, protegido dos perigos do mundo, e o choque de realidade que ele tem ao sair dela. Há algumas passagens muito interessantes em que Oniyasha se envolve com Kogane, um menino que parece ser da mesma faixa etária que ele, mas que não teve a mesma sorte. A presença de Kogane permeia toda a obra e é um dos principais combustíveis para o crescimento de Oniyasha. Eu gosto também dos relacionamentos que ele desenvolve com Ishiya e Tokusan — para além das belíssimas performances, é aqui que World is Dancing se destaca positivamente.

Por outro lado, é perceptível que o roteiro deu uma decaída mais ou menos do meio da história para frente. A gente passa muito tempo acompanhando duas trupes rivais — uma de sarugaku e outra de dengaku — em sua busca pelo reconhecimento do shogun cujo apoio é essencial para que elas continuem existindo. Não vou negar que há algumas apresentações marcantes ao longo deste arco — sobretudo quando Oniyasha e Zojiro resolvem se unir — e que é interessante aprender sobre os dois tipos de arte que futuramente dariam origem ao Noh. Contudo, de maneira geral, não é tão tocante quanto aquele começo visceral da obra.

No fim das contas, World is Dancing ainda é uma adaptação que eu recomendaria pelo simples fato de que o estúdio Cypic entregou uma animação fenomenal em diversos momentos. Além disso, a história tem alguns pontos altos que certamente ficarão comigo por bastante tempo. No entanto, World is Dancing não está mais entre os meus candidatos a “anime do ano” como eu falei que talvez estaria nas minhas primeiras impressões da temporada, pois acredito que ele tinha potencial para mais e é uma pena que tenha tomado um rumo diferente daquele que eu esperava após assistir aos episódios iniciais.

9.0/10

Yomi no Tsugai [Mari]

Eu sei que estou chovendo no molhado ao dizer isso, mas Hiromu Arakawa é uma exímia contadora de histórias. Ela escreve personagens cativantes e cria universos que parecem estar em constante expansão de um jeito que é até difícil de explicar — quando você acha que já está imerso o suficiente, ela te puxa ainda mais pra dentro. Como diria aquele meme: a miserável é um gênio.

Quando uma mangaká feito a Arakawa lança uma série de sucesso estrondoso como Fullmetal Alchemist as expectativas em relação aos seus próximos trabalhos são enormes. É compreensível, mas também injusto em alguns momentos. Eu quero que autoras como ela tenham a oportunidade de criar e desenvolver novas tramas e não que sejam pressionadas a desenhar “o próximo Fullmetal Alchemist”, como seria o caso dela. Neste sentido, fico feliz que Gin no Saji seguiu um rumo completamente diferente de seu antecessor e que Yomi no Tsugai, apesar de possuir semelhanças, anda com as próprias pernas.

Eu confesso que quando comecei a assistir a Yomi no Tsugai eu estava um pouco cética. Todo aquele negócio de “vila desconectada do resto do mundo que parece estar em tempos medievais” e “invasão de exército com poderio militar do século XXI” misturado a fenômenos sobrenaturais me pareceu um pouco demais. Eu devo ter ficado pelo menos uns três episódios sem entender nada do que eu estava assistindo, apenas seguindo o conselho do Will Smith e confiando de que em algum momento aquele rolê faria sentido. Pois bem, demorou um tiquinho, mas fez.

Uma coisa que eu amo em relação à escrita da Arakawa é que ela faz tudo no seu tempo. Tem gente que reclama que o começo de Fullmetal Alchemist é “lento demais”, por exemplo, e é óbvio que a mesma reclamação surgiu aqui. Vi inclusive comentários de algumas pessoas dizendo que “nada acontece” em Yomi no Tsugai, o que só é verdade se você estiver assistindo ao anime de olhos fechados e no mudo. Mas, de fato, o ritmo é diferente do que estamos acostumados nessas temporadas em que a maioria das adaptações têm apenas 12 ou 13 episódios, então um leve estranhamento é natural. Por outro lado, quando você começa a perceber que tudo está conectado e tem um pequeno vislumbre do que a autora está realmente planejando, a sensação é incrível. E quando você acha que compreendeu, a bicha vai lá e te deixa boquiaberto de novo.

Eu não quero falar sobre o enredo de Yomi no Tsugai com muitos detalhes pois acredito que se trata de uma experiência que deve ser apreciada aos poucos e quanto menos você souber, melhor. Dito isso, espere cenas de ação com momentos brutais, pitadas de humor características da autora, referências a eventos históricos e até mesmo a trabalhos anteriores, uma boa dose de sobrenatural, e um grande mistério que sequer desvendamos a pontinha do iceberg.

Esta primeira temporada de Yomi no Tsugai terminou com um gancho direto para uma continuação, que já está anunciada pelo estúdio Bones, mas ainda não possui data de lançamento. De qualquer forma, quando sair eu estarei lá!

9.0/10

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