Vamos Problematizar? | A falta de consciência histórica de Horikoshi Kouhei, autor de Boku no Hero Academia

Neste domingo (02), o capítulo mais recente de Boku no Hero Academia chegou às plataformas oficiais e imediatamente despertou a fúria dos leitores coreanos da obra, que acusaram Horikoshi Kouhei de não tratar uma questão histórica com a seriedade que deveria, nomeando um de seus vilões “Maruta”. Para o leitor comum que desconhece essa parte obscura das relações entre a Coreia e o Japão (que aliás se esforça bastante para escondê-la), a polêmica em torno do Maruta pode não fazer sentido ou parecer exagerada, mas não é – os fãs coreanos têm toda a razão de ficarem bravos com Horikoshi e exigir uma retratação, e nesta postagem entenderemos o motivo.

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É sabido que os laços históricos entre a Coreia e o Japão sempre foram complicados: há registros de confrontos desde pelo menos o século VII. O Japão tentou invadir repetidas vezes a península coreana, até que conseguiu a anexação do território em 1910, quando ele foi transformado em uma colônia. Posteriormente, ao final dos anos 30, o Japão começou a se mobilizar para a Segunda Guerra Mundial, forçando os coreanos que estavam sob o seu jugo a realizar trabalho escravo em indústrias e minas, além de se alistarem como soldados. Os japoneses também enviaram dezenas de milhares de mulheres de toda a Ásia – muitas delas coreanas – para bordéis militares para servir aos soldados japoneses. As vítimas ficaram conhecidas como “mulheres de conforto”. [1] A derrota do Japão na guerra levou à libertação da Coreia, porém ainda foram necessários mais 20 anos para que o presidente sul-coreano Park Chung-hee concordasse em normalizar as relações com o país em troca de centenas de milhões de dólares em empréstimos e doações.

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Desde 1965, portanto, a Coreia do Sul e o Japão se esforçam para reparar e fortalecer os laços que possuem entre si. Eles passaram a cooperar em diversas áreas, tornando-se parceiros econômicos, tecnológicos e militares. Apesar disso, muitas das questões históricas continuam sem resolução. Segundo o diplomata Yoo Euy-sang, “[o tratado assinado em 1965] não conseguiu atingir seu objetivo inicial, resolver todos os problemas relacionados ao passado colonial e, até hoje, ainda discutimos sobre esses problemas”. Na visão de Seul, os acordos não cobrem questões bilaterais importantes e sensíveis, como as mulheres coreanas forçadas à escravidão sexual pelo Exército Imperial do Japão, e precisam ser tratadas além da estrutura do acordo de 1965 [2]. Além de suas diferentes percepções sobre essas questões históricas, as relações entre a Coreia do Sul e o Japão continuam a se deteriorar devido a uma série de eventos recentes, como a imposição de controles de exportação pelo governo japonês, mudanças relacionadas à cooperação em questões de segurança nacional e regional, e o problema da bandeira imperial [3].

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Levando tudo isso em consideração, não me parece uma escolha muito sábia da parte do Horikoshi nomear um vilão de “Maruta”, que é outro problema histórico, no contexto que ele o fez. “Maruta”, literalmente traduzido como “tronco”, era o nome dado pelos japoneses aos prisioneiros que fizeram parte de um programa de experimentos em humanos e animais. Embora a Convenção de Genebra tenha proibido o uso de armas químicas e bacteriológicas em 1925, uma unidade secreta para o desenvolvimento de armas biológicas (Unidade 731) foi estabelecida pelo exército japonês no nordeste da China, após terem invadido o país na década de 30.

Com sua sede localizada nos arredores de Harbin, em Manchukuo, a Unidade 731 usou um grande número de chineses para experimentos. Muitos chineses que se rebelaram contra a ocupação japonesa foram presos e enviados a Pingfan, onde se tornaram cobaias para a Unidade 731. Alguns prisioneiros russos e coreanos também foram vítimas. Todos os anos, a polícia militar e a polícia civil de Manchukuo reuniam aproximadamente 600 marutas para enviar a Pingfan. Eles eram infectados com patógenos específicos por meios como injeções ou recebendo alimentos ou água contaminados, e eram observados e tinham seus sintomas meticulosamente registrados. Depois de sucumbir à doença, os prisioneiros eram geralmente dissecados e seus corpos eram cremados dentro do complexo.

A Unidade 731 também conduziu experimentos de congelamento nos marutas. Os prisioneiros ficavam presos ao ar livre em temperaturas tão baixas quanto -20 graus Celsius e partes de seus corpos eram borrifadas com água salgada para induzir o congelamento. Seus braços eram atingidos por martelos para determinar se estavam sendo congelados. Em seguida, eram imersos em água quente a temperaturas variadas, a fim de determinar como a recuperação de uma queimadura por frio poderia ser facilitada. Os marutas também foram submetidos a experimentos com gás venenoso. Embora esses tipos de experimentos sejam assustadores, é mais surpreendente saber que ninguém foi indiciado por eles. [4]

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Em Boku no Hero Academia, Shiga Maruta é um vilão associado à Liga dos Vilões. Ele é o dono do hospital onde fazem experimentos para transformar as pessoas em nomus. Para fazer um paralelo que facilite o entendimento dos leitores ocidentais, imagine que Horikoshi é um autor alemão que resolveu chamar um dos vilões de sua obra de “Holocausto” ou “Auschwitz”. Neste caso, os judeus que estivessem lendo a obra ficariam ofendidos e com razão. Horikoshi não pode pegar o nome dado às vítimas de uma atrocidade, colocá-lo em um vilão que traz à tona paralelos históricos ligados a ela e esperar que fique tudo bem. Isso não significa, é claro, que o Horikoshi seja algum tipo de apologista, mas sim que ele tomou uma péssima decisão pois desconsiderou o peso histórico do termo. O nome disso é falta de consciência histórica. Talvez o autor quisesse inclusive fazer uma crítica, porém utilizou o método errado para isso.

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Sendo assim, eu acredito que o desejo dos fãs coreanos e demais afetados por um pedido de desculpas ou pelo menos uma explicação por parte do Horikoshi seja legítimo. Como uma fã disse no Twitter: “[…] É uma questão histórica. História não é apenas uma matéria qualquer que a gente tem que decorar para não reprovar na escola ou algo do tipo. É sobre o passado e diversas gerações, e há um monte de emoções e sofrimento pelos quais as gerações anteriores tiveram que passar. […] Lembrem-se disso, palavras possuem poder. A mídia é a ferramenta mais poderosa que existe para afetar as percepções e os valores das pessoas. É por isso que os artistas precisam tomar cuidado com o que usam e com o que fazem em suas criações.” [5]

ATUALIZAÇÃO (03/02/20 às 1h05min):

Também no Twitter, a autora do quadrinho coreano Her Tale of Shim Chong se pronunciou sobre o assunto. Eu perguntei à Seri se ela estava sabendo sobre o ocorrido já que ela é uma voz importante da indústria de quadrinhos, somando mais de 25 mil seguidores. Seri respondeu da seguinte forma:

“Eu não sabia porque não leio [o mangá], mas soube que muitos fãs ficaram chocados e discutiram muito sobre isso. Eu acredito que dar esse nome [ao personagem] foi uma decisão ingênua por parte do autor, mesmo que sua intenção fosse criticar a história. Por que ele usou o nome associado às vítimas? E se fosse uma vilã nazista chamada Anne Frank? Se um autor norte-americano criasse um vilão que utilizasse bombas nucleares e seu nome fosse Hiroshima ou Nagasaki, como os fãs japoneses se sentiriam em relação a isso? Se o que o autor queria era tratar de um problema histórico, ele deveria ter utilizado o nome Unidade 731, que era o nome associado aos perpetradores. [Suspira]. Às vezes todos os quadrinhos japoneses parecem campos minados. Nós amamos esses quadrinhos, mas sempre que um autor revela ter uma visão distorcida da história ou faz um discurso de ódio contra os coreanos, nós ficamos magoados e não temos escolha a não ser parar de ler [suas obras]. Dói muito sempre que isso acontece.” [6]

Em sua resposta, Seri resumiu bem o ponto central da discussão que pretendíamos levantar aqui. Neste momento temos o dever de ouvir o que os coreanos (e os outros povos afetados por esse problema histórico) têm a dizer sobre isso e, ao lado deles, exigir um posicionamento por parte de Horikoshi.

ATUALIZAÇÃO 2 (03/02/20 às 11h10min):

A Shueisha, editora responsável pela revista na qual Boku no Hero Academia é publicado, lançou um comunicado oficial nesta segunda-feira (03) para prestar esclarecimentos. Segundo eles, não havia más intenções por trás do nome “Maruta”, mas ele será mudado no futuro após terem consultado Horikoshi:

“Foi nos apontado que no capítulo mais recente de Boku no Hero Academia apareceu um personagem cujo nome foi associado a fatos históricos passados. Nem o autor nem o departamento editorial tinham esse tipo de intenção ao nomear o personagem. Entretanto, já que não queremos misturar a obra com fatos históricos que não possuem relação com ela, após consulta com o autor, decidimos mudar o nome [do personagem] quando os volumes encadernados forem lançados.” [7]

Horikoshi também comentou pessoalmente sobre o caso:

“Várias pessoas apontaram que o nome “Maruta”, que apareceu na edição desta semana da Jump, trouxe à tona eventos históricos passados. Eu nunca tive essa intenção ao nomear o personagem. Levamos seus comentários a sério e iremos substituir o nome [do personagem] no futuro.” [8]

Muitos ficaram positivamente surpresos com a resposta rápida da Shueisha à controvérsia. Esperamos que esse posicionamento da editora signifique que eles tomarão mais cuidado de agora em diante a fim de evitar incidentes semelhantes no futuro.

REFERÊNCIAS:

[1] SOUTH KOREA and Japan’s feud explained. BBC. 02 dez. 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-asia-49330531&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

[2] TSELICHTCHEV, Ivan. Why can’t Japan and South Korea get past their battle scars?. South China Morning Post. 15 abr. 2018. Disponível em: <https://www.scmp.com/week-asia/geopolitics/article/2141313/why-cant-japan-and-south-korea-get-past-their-battle-scars&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

[3] KIMURA, Kan. Japan-Korea: What’s in a Flag?. The Diplomat. 15 dez. 2019. Disponível em: <https://thediplomat.com/2019/12/japan-korea-whats-in-a-flag/&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

[4] YOON, Tae-Ryong. Historical Animosity is What States Make of It: The Role of Morality and Realism in Korea-Japan Relations. The Korean Journal of International Studies 9-1, jun. 2011, p. 1-37. Disponível em: <http://www.kjis.org/journal/view.html?uid=64&page=&pn=mostread&sort=publish_Date%20DESC&spage=&vmd=Full&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

[5] Tradução parcial deste fio.

[6] Tradução deste fio.

[7] Clique aqui para ver o comunicado oficial da editora. A tradução foi baseada neste fio.

[8] Clique aqui para ver o post original de Horikoshi. A tradução foi baseada neste tweet.

7 comentários em “Vamos Problematizar? | A falta de consciência histórica de Horikoshi Kouhei, autor de Boku no Hero Academia

  1. É o exemplo de Seri é o mais adequado. Uma Vilã Nazista chamada Anne Frank é um desrespeito. Mas em X-Men já existe um vilão chamado Holocausto que é líder de campos de concentração na Era do Apocalipse e não houve nenhum problema porque o nome Holocausto foi associado a uma atrocidade que é o que nome sugere, diferente de utilizar o nome da vítima. Que sim, é extremamente ofensivo.

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  2. Muito interessante o texto, parabéns ao autor(a)!

    Essa visão inocentemente etnocêntrica japonesa já gerou problemas envolvendo relações Internacionais em outros fandons como Hetalia, vale dar uma lida.

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  3. Recomendação a quem leu essa matéria. Veja o vídeo chamado “O Mestre do Horror Repulsivo, do Quadro em Branco, no YouTube, de 7:30 até 9:00. matérias assim, precisam de um complemento real, posto nesse vídeo, nessa parte específica.

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