Vamos Problematizar? | Animes deveriam ser (e são) políticos!

Este texto é uma tradução do transcrito do vídeo “Anime SHOULD BE (and is) POLITICAL”, postado no canal Zeria em 21 de setembro de 2018, que nos deu permissão para repostá-lo. O transcrito original pode ser conferido clicando aqui. Recomendamos que também assistam ao vídeo se possível, pois todo o ensaio é acompanhado e respaldado por cenas das obras citadas (as quais optamos por manter os nomes originais, com exceção dos filmes do Ghibli). Grifos em itálico estão no texto original; grifos em negrito são nossos.

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Animes devem ser políticos. Não, os animes já são políticos, como qualquer outra mídia que você possa ver e ouvir. Todas as coisas que surgiram não da natureza, mas da humanidade trazem consigo a marca da sociedade na qual elas foram criadas, uma sociedade moldada pelas ações e atores políticos que existem em toda parte, e até a própria natureza mostra sinais claros de influência ideológica. Nenhuma mídia pode escapar das tendências pessoais sutis de seus criadores, nem pode qualquer obra de arte evitar ser afetada pelo mundo em que existe. Afirmar o contrário seria ignorar a característica universal da arte: sua capacidade de se comunicar. Se aceitarmos que toda arte, de alguma forma, fala sobre como os seres humanos agem ou deveriam agir, então ela deve, como resultado, conversar com a política. Esta não é a política das eleições e dos líderes, é a política de como a sociedade é organizada, das maneiras como muitos indivíduos moldam o mundo ao seu redor.

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Mesmo assim, as pessoas a negam. Em muitos meios, as pessoas esperneiam para que os criadores “mantenham a política longe do nosso entretenimento”, como se isso fosse possível ou aconselhável. Certamente, esses mesmos caras que amam 1984 devem perceber que se trata de uma arte política, né? Você não vê exatamente pessoas brigando com romancistas para que eles mantenham a política longe dos trabalhos deles, vê? Não, isso é algo mais comum nas formas mais jovens, aquelas em que o desejo de ser visto como algo verdadeiramente artístico é forte, mas a dinâmica real associada com ser uma forma de arte adequada ainda não está presente. Basta dar uma olhada nos comentários que listei. Enquanto aqueles que afirmam que estou “trazendo uma perspectiva ocidental para um desenho japonês” estão errados – a política do Japão não é uma criatura mítica que não possa sequer ser comparada a nossa –, é a ideia de que o anime em si não está conectado à política do mundo real que me deixa de queixo caído. Darling in the FranXX apresenta algumas afirmações bastante diretas, mesmo que ele as estrague um pouco. Como um dos programas mais populares de 2018, seria difícil para um espectador sensato olhar para o anime e dizer, “é, não parece haver política aqui!”. Outras obras amplamente assistidas deste ano, como Boku no Hero Academia, Hinamatsuri, Megalo Box, Persona 5 the Animation, Violet Evergarden e Grancrest Senki, têm mensagens gritantes sobre a sociedade. Em obras com afirmações menos claras, a política ainda dá um jeito de entrar, como sempre acontecerá. O enredo de Sora yori mo Tooi Basho só funciona devido ao subfinanciamento da exploração científica da Antártica, característica de uma ampla falta de dinheiro destinada a empreendimentos que não são diretamente lucrativos. Hataraku Saibou! explora a maneira pela qual uma espécie de máquina social é montada e a que isso pode levar, melhor visto no arco brilhante sobre o câncer. Literalmente qualquer anime que se passe numa escola é moldado pela forma como o Japão organiza a sua educação, que, devo acrescentar, passou por inúmeras mudanças ao longo do tempo, mais claramente devido aos efeitos diretos do colonialismo e da ocupação, processos nitidamente políticos. Qualquer coisa que se passe em nosso mundo moderno será política porque esse mundo moderno é moldado por decisões e forças políticas. Se vários humanos estiverem juntos, haverá algum tipo de política, mesmo que isso não se destaque imediatamente.

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Uma réplica comum a isso é afirmar que, obviamente, haverá um pouco de política em qualquer coisa se você resumir o termo a isso. De acordo com esses indivíduos, a política descarada e direta é o que afasta as pessoas. Ao que eu digo, “parem de mentir”. Animes com mensagens muito diretas dificilmente são mal vistos pela comunidade em geral. Gundam, Shoujo Kakumei Utena, Evangelion, Death Note, Fullmetal Alchemist, Psycho-Pass, literalmente qualquer filme do Ghibli já feito! Você vai mesmo olhar pra minha cara e me dizer que Princesa Mononoke ou A Viagem de Chihiro são sutis com suas mensagens políticas? Tipo, serião mesmo? Ninguém sai gritando por aí que o Ikuhara e o Yamamoto são esquerdalhas envenenando o mundo dos animes. Bem, os que fazem são poucos.

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Não, todos são capazes de amar a boa e velha política em seus animes. Quando as pessoas dizem que não querem que a política seja esfregada na cara delas, o que elas geralmente querem dizer é que não querem ver políticas a) das quais elas discordem e b) que elas percebam. Claro, há muitos casos em que a política de uma obra é tratada de forma desajeitada, mas esses casos têm menos probabilidade de se destacarem se você concordar com o que está sendo dito. É menos provável que um direitista perceba políticas que promovam sutilmente sua ideologia e o mesmo é verdadeiro para um esquerdista, porque a ideologia define como você vê o mundo e, portanto, a mídia que promove essas ideias sem fazê-lo ativamente simplesmente parecem retratar o mundo como ele é para aqueles que concordam com ela.

Então, os animes têm política. Ótimo. O que isso realmente quer dizer? Bem, isso nos dá muitas possibilidades. Se os animes podem ser e são políticos, isso abre uma infinidade de caminhos a serem explorados. Podemos ver como um determinado trabalho, de maneiras sutis ou óbvias, retrata a dinâmica da luta de classes, ou o papel das mulheres na sociedade, ou a forma como o gênero é construído. E isso é apenas contando a partir da minha perspectiva de esquerda. Embora eu obviamente discorde de outras abordagens políticas, elas existem e fornecem pontos de vista interessantes – embora pessoalmente muito desagradáveis – a partir dos quais é possível olhar para a arte. Todas as obras são analisadas por lentes políticas porque, eventualmente, no decorrer da vida de uma mídia, seus críticos perceberão que comentar a sociedade é simplesmente o que a arte faz, de uma maneira ou de outra, e que isso pode ser analisado. Então, eu gostaria de apresentar uma pequena demonstração disso aqui.

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Em 2017, dois animes foram lançados. Um era ACCA e o outro era Princess Principal, ambos sendo suspenses. Os dois são políticos, como eu acho que demonstrei que toda a arte é, mas como trabalhos focados especificamente na natureza da monarquia, eles se destacam como exemplos particularmente importantes. ACCA, porém, tenta evitar a política. O que eu quero dizer com isso? Bem, apesar de ser um suspense político literal, ele não apresenta quase nenhuma posição ideológica em sua face. Todos os atores da série desejam liderança efetiva e, ocasionalmente, poder pessoal para si próprios ou para a região que controlam. Embora existam dois herdeiros em potencial para a monarquia, nenhum deles representa quaisquer objetivos claros. Eles são bastante desenvolvidos como personagens e por isso a obra é legal de se assistir. Mas um suspense político onde os atores não parecem ter nenhuma política pessoal é apenas bizarro e fica parecendo uma tentativa de evitar alienar qualquer espectador em potencial ao não apresentar uma ideologia própria.

Mas é claro que isso não é possível. Por exemplo, a obra é inteiramente focada na ideia de um monarca hereditário que tem poder significativo e real sobre a nação, claramente tomando decisões muito além das tomadas pelos monarcas das democracias liberais modernas que mantêm suas monarquias, como o próprio Japão. Todo o enredo gira em torno da questão de quem irá suceder ao rei, mas nunca se pergunta se deve haver um rei nesta nação moderna, pós-industrial e liberalizada. Por não apresentar uma postura política real, esta série apoia o monarquismo absoluto no século XXI. O que, olha, me deixaria muito desanimada com uma obra assim, mas pelo menos eu seria capaz de respeitá-la em algum nível por deixar isso claro. Eu odeio Ima, Soko ni Iru Boku por chegar perto demais de mensagens pró-vida, mas pelo menos ele é direto com isso. Sim, eu duvido que a Natsume Ono tenha pensado profundamente sobre isso. Mas o fato de ela não ter feito isso não remove a mensagem de alguma forma. Ela ainda está lá, quase certamente em um grau maior do que se ela tivesse pensado sobre que política transmitiria por meio deste texto. Novamente, eu gosto da obra, mas tudo isso atrapalhou a minha diversão. Muitas vezes, é melhor pensar conscientemente sobre a política de uma obra enquanto ela está sendo escrita, porque posso garantir que ela dirá algo, e acho que você preferiria ter controle direto do que está dizendo do que deixar isso para o seu subconsciente decidir.

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Princess Principal conta uma história muito diferente. De muitas maneiras, ele também se concentra em uma luta de sucessão, embora, por ser uma narrativa significativamente mais solta, esse elemento apareça com menos frequência. E ainda assim, o anime está constantemente ciente do que está realmente dizendo. Ambientado em uma Londres steampunk, ele se passa depois que o país foi dividido em dois por uma revolução semi-bem-sucedida de trabalhadores que pretendiam construir uma república, empunhando bandeiras vermelhas com martelos e engrenagens. Mas o que é isso? Parece que uma ideologia real invadiu a narrativa? Com certeza! As massivas divisões de classe inerentes a uma Inglaterra industrial em seu início são constantemente observadas, demonstrando como a pobreza desenfreada prejudicou nossas personagens principais e tantos outros, como isso poderia levar a agitação social suficiente para ajudar a maldita revolução a vir mais rápido. A política das interações anglo-japonesas é examinada, assim como muitos outros tópicos em medidas menores ao longo dos vários episódios, como feminismo e colonialismo. Mais notavelmente, especialmente em comparação com ACCA, está a forma com a qual o anime lida com a monarquia. Certamente, há uma troca no estilo Barbie em A Princesa e a Plebéia que estabelece a história de fundo, um detalhe da trama que é necessariamente político ao retratar como pessoas de diferentes classes vivem. Mas mais do que isso, ele envolve o que significa monarquia. Aqui certamente há quem se oponha, como se vê no fato de que houve uma revolução. Existem várias facções, com nossas personagens principais trabalhando para os republicanos que desejam expandir seu alcance pelo resto da Grã-Bretanha, enquanto se opõem aos legalistas que pretendem trazer os rebeldes traiçoeiros de volta ao redil. Nossa homônima princesa, Charlotte, tem seus próprios objetivos, uma ideologia real, sabendo de seu tempo nas ruas que esta Grã-Bretanha está profundamente doente, que a disparidade de classes leva muitos à morte e ao desespero, que o muro que separa os dois países é profundamente prejudicial para milhares, se não milhões de pessoas. A certa altura, ela declara que a monarquia em si é ruim, que provavelmente será enviada para a guilhotina depois de realizar o que se propôs a fazer e, mais notavelmente, que não teria problema se isso acontecesse, que talvez seria até mesmo uma coisa boa porque a MONARQUIA É RUIM. Princess Principal se engaja com as implicações que ele cria. E por causa disso, é capaz de contar uma história mais interessante, de explorar mais completamente o mundo que constrói e, como resultado, aprofundar os personagens. Nem sempre concordo com ele, em última análise, o anime assume uma posição liberal de reforma que eu não acho que funcionaria, mas ele expõe suas posições e incentiva o pensamento, algo que não posso dizer sobre muitas séries. Todas as pessoas têm algum tipo de ideologia, mesmo que essas ideologias sejam apenas um apoio irrefletido ao status quo, então retratar personagens com elas apenas torna mais fácil vê-los como seres humanos reais. Engajar-se com a política é uma coisa boa. Nem todo anime deveria ou poderia fazer isso neste nível, mas vale a pena considerar suas mensagens antes de se escrever um trabalho, pois muitas vezes isso pode levar a um produto mais interessante.

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Claro, há muito mais exemplos de política bem e mal executados em animes. Você tem os Gatchaman Crowds, Ghost in the Shells e Flip Flappers da vida, enquanto do outro lado você tem os Classroom Crises, os Kill la Kills e os Hitsugi no Chaikas. O quão bem feito esses animes podem ser depende de uma série de fatores – sua própria política, como você se sente sobre a estética de uma obra, sua tolerância para ouvir discursos – tanto quanto de quaisquer outros critérios usados para se avaliar uma obra. Mas todas essas séries e muitas outras são políticas e devem ser examinadas como tal. Isso não quer dizer que toda análise crítica e discurso devam ser focados nos elementos políticos de uma história, mas jogar fora o potencial para isso é apenas rejeitar uma obra como arte.

Eu quero mais política no AniTube. Quando você olha para outras áreas de produção de vídeo-ensaios no YouTube, você encontra muitas pessoas que cobrem seriamente o que as obras estão dizendo sobre a sociedade. A falta disso em nossa esfera é uma vergonha. Então, estou pronta para corrigir isso. Obras que adoro têm mensagens das quais discordo, obras que odeio têm mensagens com as quais concordo em gênero, número e grau, e isso merece ser analisado tanto quanto como um anime surgiu ou o que uma obra me fez sentir. Você quer um vídeo sobre a natureza da escravidão nos isekais? Bem, vai ter. Quer um vídeo sobre Lupin III, Kitarou e como as modernizações se adaptam aos novos climas políticos? Vai ter também. Porr*, pode até ser que eu faça um vídeo sobre Planet With e a natureza das ideologias, ou que eu dê uma examinada mais profunda em Princess Principal, embora eu não possa prometer nada disso. Naturalmente, está tudo bem se você não quiser. Se você quiser apenas assistir aos meus vídeos menos políticos, pode continuar a fazer isso, pois eles não vão parar. A análise diretamente política é apenas um dos muitos caminhos disponíveis para eu tomar e não será o único por onde andarei. Mas é importante lembrar que mesmo os vídeos “não políticos” são tingidos de política. Yuri se destaca como gênero porque os relacionamentos queer são tratados de maneira diferente dos heterossexuais pela sociedade em que são feitos. Os animes do Ikuhara são todos sobre questões políticas. Um vídeo sobre uma empresa arruinando uma franquia amada só faz sentido na estrutura do capitalismo. E porr*, quase todas as mídias em nossa sociedade são feitas para serem vendidas. No final das contas, tudo volta ao nosso modo de produção dominante.

Mais uma vez, gostaria de deixar claro que nem todo framework analítico precisa ser político, que você não precisa olhar para um anime através de lentes políticas e que tudo bem ignorar a política, contanto que você não tente negar completamente sua existência em uma narrativa. Mas afirmar que qualquer história está livre do efeito da política é simplesmente absurdo. Minha proposta é apenas que os escritores percebam isso quando escrevem, e que nós, como espectadores, nos tornemos mais dispostos a abordar as coisas por nossas respectivas lentes políticas de maneira consciente. A ignorância pode ser uma bênção, mas não é saudável, portanto, evitar intencionalmente a política da arte que amamos só pode nos piorar a longo prazo.

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