Vamos Problematizar? | As controvérsias e o legado de Attack on Titan

Este texto é uma tradução do artigo “Attack on Titan couldn’t escape controversy in the end” (“Attack on Titan não foi capaz de fugir das controvérsias no fim das contas”, em uma adaptação livre para o português) escrito por Kazuma Hashimoto, tradutor e crítico de mídia, e publicado no site Polygon em 19 de abril de 2021. Atenção: esta análise inclui spoilers do final do mangá.

Após 12 anos de serialização, Attack on Titan chegou ao fim. Os painéis finais do mangá se passam alguns anos no futuro, depois do Rumbling, e focam em uma trama concebida pelo protagonista da série, Eren Yaeger, que queria efetivamente cometer o genocídio contra o mundo todo. A conclusão é um emaranhado de quadros, passando por pontos da trama que não foram resolvidos para ilustrar imagens pesadas de guerra e paz e deixar o legado do mangá confuso.

Embora muitos tenham visto a história de Hajime Isayama como tendo um subtexto fascista desde o início – incorporando paralelos do mundo real à implementação de campos de concentração e até mesmo um forte nacionalismo no corpo da obra – foram necessárias as páginas finais do criador para que muitos leitores acreditassem nesse argumento. Alguns fãs recorreram ao Twitter para insistir que a história desencorajava a guerra e a remilitarização; enquanto outros lamentaram que a trama carecia de uma conclusão adequada, inclusive comparando-a com a recepção morna do final de Game of Thrones. De forma até que um tanto previsível, uma petição surgiu na plataforma Change.org para que mudassem completamente o final da série.

Attack on Titan termina com o mundo à beira de uma guerra racial literal, com os eldianos e os marleyanos não encontrando nenhuma solução verdadeira além de se remilitarizar e matar uns aos outros até que apenas um grupo permaneça. Apesar da intenção do protagonista Eren Yeager, cujo objetivo era se tornar o vilão da história a fim de unificar as pessoas e alcançar uma paz superficial, os eldianos se reúnem sob o seu nome e se autodenominam “Yaegeristas”, remilitarizando seu país nos anos após a morte de Eren.

Durante este tempo, Armin Arlert, junto com os membros restantes da agora presumidamente dissolvida Tropa de Exploração, estão a caminho para discutir termos de paz com os líderes eldianos. Sem consistência dentro da estrutura narrativa da série, as chuvas de exposição finais rapidamente se desenrolam, com o capítulo final dedicando uma sequência de flashback a Eren revelando seu plano a Armin algum tempo antes do conflito final.

Embora repleta de contradições ao longo dos anos, a mensagem de Isayama sobre um futuro dependente da remilitarização parece mais clara do que nunca. Há um nível de finalidade no slogan dos Yaegeristas, traduzido a grosso modo como “Se você é capaz de lutar, você vence, se você não é capaz de lutar, você perde! Lute, lute!”, e cuja monarca reinante do povo eldiano, Historia Reiss, também concorda com este ideal.

Pode-se argumentar que a mensagem de Isayama é anti-guerra, dada a postura e determinação de Armin de compartilhar com o mundo a verdade sobre a tentativa de Eren Yaeger de cometer genocídio global. Mas o final não é ousado o suficiente para refutar os Yaegeristas e, em vez disso, se contenta com um nível de ambivalência que contrasta com os anos de texto pró-imperialista e fascista que solidifica ainda mais a necessidade de um país de ter forças armadas. Em vez de uma reviravolta ou subversão que pudesse desafiar o debate, Isayama optou pelo silêncio.

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A remilitarização é um ponto constante de discussão no Japão, tanto para os membros do Partido Liberal Democrata quanto para os cidadãos japoneses. Uma ação recente sobre o assunto inclui uma possível revisão do Artigo 9, que permitiria ao Japão restabelecer oficialmente suas forças armadas. Desde a renúncia do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe em agosto de 2020, as conversas sobre a revisão do Artigo 9 diminuíram significativamente, embora ela continue sendo um objetivo para a Nippon Kaigi, uma organização ultranacionalista no Japão que tem vários laços com o atual partido político, ao qual o atual primeiro-ministro Yoshihide Suga é abertamente afiliado. No entanto, qualquer tentativa de repensar as forças armadas continua sendo um ponto de discórdia entre o povo japonês; em uma pesquisa realizada em junho de 2020, 69% da população se opôs à revisão do Artigo 9.

Conforme observado em diferentes análises de Attack on Titan ao longo dos anos, Isayama destacou em seu blog pessoal que o personagem Dot Pixis é baseado no general japonês Akiyama Yoshifuru, a quem ele elogiou por sua astúcia. Isso é importante quando se considera o contexto da obra de Isayama, isso e o nome da deuteragonista de Attack on Titan, Mikasa Ackerman: ambos os personagens são inspirados, de alguma forma, por um período específico da Guerra Russo-Japonesa. Yoshifuru era um general do exército imperial japonês e Mikasa era o nome de um navio de guerra pré-dreadnought que participou de vários encontros navais, incluindo a Batalha de Tsushima, na qual a marinha japonesa derrotou de forma decisiva praticamente toda a frota russa.

Este período viu uma maior colonização do império japonês sobre a Ásia, incluindo a Coreia e outras nações asiáticas. Além disso, foi quando o ensino do “bushido” começou como um conceito reimportado. O código de honra, que nunca existiu realmente, foi ensinado nas escolas japonesas para promover ainda mais a propaganda imperialista que colocava lealdade ao império japonês.

Uma teoria crítica sobre Attack on Titan começou a se formar quando os espectadores conectaram o interesse de Isayama neste período e a comparação da semelhança de Dot Pixis com Yoshifuru com uma controvérsia em torno de uma conta do Twitter, supostamente pertencente ao criador do mangá, que tuitou sobre as relações entre japoneses e coreanos durante a ocupação japonesa da Coreia. O tweet em questão afirmava que “seria horrível pensar nos militares que estavam lá antes da formação da Coreia do Sul como algo comparável aos nazistas. O povo coreano que foi governado dobrou sua população e expectativa de vida.”

O microblog termina com a afirmação de que o tratamento dado ao povo coreano sob a ocupação japonesa não poderia ser comparável ao genocídio étnico do povo judeu. Essa crença é comum entre os círculos de revisionistas históricos e conservadores, com grupos conservadores como o Nippon Kaigi apagando efetivamente as menções a esses crimes de guerra de alguns livros de história japoneses.

“Não foi ótimo, lembro que entrou para os assuntos mais comentados do Twitter por um tempo. Tal como acontece com as comunidades da Internet, as opiniões foram divergentes, mas a maior parte foi uma decepção expressada com muita força. Também havia uma certa descrença quanto a isso. Alguns ficaram tipo ‘Ah, isso não é realmente uma surpresa, você chegou a ler?’”, disse a usuária coreana do Twitter Ju-hyun Song, comentando sobre a polêmica anterior. Ele [AoT] ainda é citado como “um daqueles [mangás]” ou um gênero a ser evitado. Ela ainda acrescentou que a recepção ao final foi “mista, mas majoritariamente negativa” entre os leitores coreanos de Attack on Titan.

Embora os jornalistas não tenham conseguido confirmar se aquela conta, agora trancada, pertence a Isayama, o final de Attack on Titan ecoa esses sentimentos à sua própria maneira. Em uma sequência entre Armin e Eren, Eren fala sobre os sentimentos de Ymir Fritz, o primeiro Titã e esposa de Karl Fritz, o ex-rei de Eldia. E que, apesar de seu status como escrava dele, foi o amor que a compeliu a protegê-lo e no fim morrer por ele.

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Este ponto do enredo serve como uma espécie de “te peguei!” que busca higienizar a relação entre um povo colonizado e seus colonizadores e afirmar a retórica comum empregada pelos círculos de reviosionistas históricos para distorcer a verdade em torno da história da escravidão sexual nas colônias japonesas. No documentário de Miki Dezaki, “Shushenjo: The Main Battleground of the Comfort Women” (“Shushenjo: o principal campo de batalha das mulheres de conforto”, em português), membros de grupos conservadores insistem que essas mulheres não foram vítimas de escravidão sexual, o que ilustra como essas ideias ainda estão difundidas hoje.

O revisionismo é um tema consistente em Attack on Titan, desde a verdade sobre Ymir, o Primeiro Titã, a Eren apagando as memórias de Armin até sua morte, para que Armin possa então contar a verdade sobre o seu plano para o mundo. E, de certa forma, não é de se surpreender que Attack on Titan tenha terminado com um grito triunfante pela remilitarização compensada por uma oferta passiva pela paz. O futuro do mundo dentro do universo de Attack on Titan é incerto, o que talvez fosse a intenção de Isayama. A resolução de Attack on Titan permanece, na melhor das hipóteses, contraditória em suas intenções. No entanto, os fundamentos pró-imperialistas e fascistas da série permanecem na forma de um impulso pela remilitarização, apresentada como um meio essencial para proteger uma alegoria fracamente velada de uma nação insular de ameaças externas.

Attack on Titan deixa seus leitores com uma afirmação de “nós contra eles” no slogan dos Yaegeristas, “Se você é capaz de lutar, você vence, se você não é capaz de lutar, você perde!”. A paz pode, talvez, ser obtida, mas apenas por meio das ações e manipulações de um único homem. A resposta dividida a este final inconclusivo é apenas mais uma adição à lista de inúmeras controvérsias que atormentaram a série, lançando uma longa sombra sobre o legado cada vez menor da história de fato.

A última temporada do anime pode instigar o debate uma última vez, e trazer a série de volta à vanguarda e aos holofotes entre os fãs mais ávidos. Mas quando penso em Attack on Titan, é da polêmica que me lembro, ao lado do amor e fascínio de Isayama pelo período histórico em que o Japão imperial iniciou sua longa era de colonização de outros países asiáticos. Isso é o que Attack on Titan deixa para trás – um legado do imperialismo.

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