Vamos Problematizar? | O que está acontecendo em Shingeki no Kyojin?

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[Este texto é uma tradução do artigo publicado por Vernieda Vergara no site Women Write About Comics em 30 de junho de 2017].

ATENÇÃO: Spoilers do mangá adiante.

Digam o que quiserem, mas a obra de Shingeki no Kyojin, escrita por Hajime Isayama, desperta um turbilhão de emoções nas pessoas. Às vezes se trata de amor pela matança de gigantes e pela estética maneira. Em outros casos se trata de frustração pelo ritmo irregular. E, para um grupo específico de pessoas, a obra causa espanto.

No momento eu me encaixo na terceira categoria.

Superficialmente eu aceito que Shingeki no Kyojin seja mais uma daquelas obras onipresentes que definem uma geração de fãs de animes e mangás da mesma forma que Naruto e Evangelion fizeram um dia. No entanto, pessoalmente, eu prefiro abordar o trabalho de Isayama a partir de uma perspectiva cultural e sociológica. Quais são as forças externas que influenciam seu trabalho? Poderíamos argumentar que Shingeki no Kyojin fortalece sentimentos pró-militarismo, que Isayama faz apologia à Segunda Guerra Mundial, ou que o mangá demonstra o desafeto e aborrecimento das gerações japonesas mais jovens. Neste momento, porém, no qual o mangá supostamente acabou de preparar o terreno para os 20% restantes da história, eu preciso fazer uma simples pergunta: o que o Isayama está fazendo?

Eu estaria mentindo se dissesse que eu não vinha fazendo ressalvas já há algum tempo. Deixando de lado as implicações nacionalistas, o enredo de Shingeki no Kyojin sempre foi questionável. Beleza, vamos introduzir o conceito de uma família real secreta que controla a cidade murada pelas sombras. Ok, vamos acrescentar a ideia de que há uma conspiração generalizada e a verdadeira monarca possui o poder de controlar mentes. Sim, faz todo o sentido que o exército queira iniciar uma revolta, derrubar o sistema de poder atual, e colocar uma das suas como rainha. Shingeki no Kyojin não era para ser uma aventura pós-apocalíptica na qual se descobriria o que há além das muralhas? Por que estamos focando tanto no que está acontecendo dentro delas? Principalmente se nada do que está sendo retratado tem a ver com o que há no porão da família de Eren?

Eu acompanhei essas reviravoltas com um crescente ceticismo, mas acompanhei. Eu realmente queria descobrir o que havia no porão, sabe? Sem dúvidas, vários outros leitores se sentiam da mesma forma.

Isayama finalmente respondeu a pergunta do que havia no porão em capítulos recentes – e meus níveis de espanto aumentaram ao invés de diminuir. Agora, eu leio Shingeki no Kyojin não para ver quais são os fatores externos que influenciam o trabalho de Isayama, mas sim como um espectador desafortunado que não consegue virar as costas para um acidente de carro iminente.

A grande revelação sobre o mundo de Shingeki no Kyojin

O porão continha três diários deixados pelo pai de Eren, Grisha Yeager. Neles descobrimos a verdade sobre o mundo. Isto é, descobrimos que a cidade murada não é o último bastião da humanidade. Grupos isolados de seres humanos compõem a espinha dorsal de muitas distopias adultas. Outro shounen bastante conhecido, Claymore, incorporou esse conceito na construção de seu mundo, ainda que de uma forma diferente.

Mas o que a gente faz quando a base da premissa de um mangá é minada desse jeito? A ideia por trás das Tropas de Exploração de Shingeki no Kyojin é explorar o mundo além das muralhas e encontrar uma maneira de libertar os humanos de uma vida enjaulada. A natureza exploratória desse dever fundamental é parte do que torna o mangá tão atraente em seus primeiros volumes. Descobrir que há outros humanos, que a cidade murada fica localizada em uma pequena ilha, que um inimigo ainda mais perigoso do que os próprios titãs existem além-mar é desconcertante. Por que introduzir elementos capazes de mudar tudo a essa altura do campeonato?

Alguns aspectos da revelação são necessários para explicar os mistérios anteriores. As pessoas que moram na cidade murada são descendentes de uma raça humana que quando exposta ao estímulo correto – como um soro injetado – é capaz de se transformar em titãs. Esses seriam os titãs comuns. Mas e os titan-shifters como o Eren e a Annie? Por que eles mantiveram sua inteligência humana?

A explicação se encontra no mito de criação. A criadora dessa raça humana era uma mulher chamada Ymir Fritz. Os detalhes exatos variam, mas para resumir a ópera: ela adquiriu o poder de se transformar em titã. Com essa habilidade, ela elevou a humanidade e criou um império. Depois de sua morte, por meios ainda não especificados, a habilidade dela de se transformar em titã foi dividida em nove partes – dando origem a nove titan-shifters com habilidades únicas.

Até aí tudo bem, mas essa explicação trouxe algumas ramificações. Ramificações infelizes.

Os paralelos históricos desagradáveis

Assim como muitos exemplos reais, o império de Ymir caiu em desordem e foi derrubado. As pessoas que eram oprimidas ascenderam e estabeleceram o próprio império. Os oprimidos então passaram a ser os opressores e os sobreviventes do império de Ymir – exceto aqueles que fugiram pelos mares para se tornarem o que eventualmente seria a cidade murada – sofreram sob as regras do novo regime.

Pelo suposto crime de possuírem o sangue de Ymir – ou seja, o potencial genético de se transformar em titã – esses sobreviventes e seus descendentes foram tratados como monstros. Eles eram enviados para campos de concentração específicos. Ousar ultrapassar os limites do distrito resultava em consequências terríveis. Além disso, para identificar esses párias, eles tinham que usar braçadeiras de identificação. Não sei você, mas isso parece estranhamente familiar, né?

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As braçadeiras usadas pelos eldianos em Shingeki no Kyojin vs. as braçadeiras usadas pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial em territórios ocupados pelos nazistas. À direita está um homem judeu de Rzeszow, Polônia (Holocaust Education & Archive Research Team).

Vejam bem, como alguém que lê mangá e assiste anime há muito tempo, eu conheço bem o caso de amor que a cultura popular japonesa tem com a Segunda Guerra Mundial e a Alemanha Nazista. Mas quando combinado com as implicações pró-militarismo de Shingeki no Kyojin, introduzir esse tipo de subjugação e desumanização levanta algumas questões sérias. Onde separamos as coisas?

Indo mais fundo, os paralelos entre os judeus da vida real e os eldianos – como chamam a raça de titãs em potencial – apontam para algumas implicações lamentáveis. Os eldianos desfrutavam de um governo tirânico? Eles são capazes de se transformar em literais monstros? O que o Isayama está tentando dizer aqui? Não precisaríamos ir muito longe para dizer que isso se trata de apologia, que os eldianos merecem receber esse tipo de tratamento. Se fosse para eu ser bondosa, diria que o Isayama está tentando retratar todos os lados – os descendentes eldianos exilados na cidade murada, os eldianos que vivem em miséria e o Império de Marley que agora oprime os eldianos – de uma maneira positiva e negativa, mas tudo que eu li até aqui sugere que ele não é nem de longe um escritor tão bom assim para conseguir um feito desses de uma maneira bem sucedida.

Quando a novela vai longe demais

Falando em desumanização, uma das punições aplicadas aos descendentes que violam a lei – ou simplesmente irritam o oficial errado – é transformá-los em titãs comuns e soltá-los dentro das muralhas. É para ser uma grande ironia, sabe? Devorar o seu próprio povo? Que coisa mais inteligente! Que engraçado! Considerando tudo que aconteceu antes dessa revelação, eu posso aceitar isso e acompanhar a ideia. O que eu não esperava era a novela que se seguiu depois disso.

Com os diários de Grisha descobrimos que ele veio do império que fica do outro lado do oceano. Que ele era uma das pessoas subjugadas. Que ele um dia teve uma família (esposa e filho) lá. Mas quando ele se tornou parte de uma rebelião secreta para ajudar o seu povo, tudo deu errado e ele eventualmente foi parar na ilha além-mar. Graças a uma estranha reviravolta do destino, ele conseguiu escapar de se tornar um titã comum. Sua esposa, no entanto, não conseguiu o mesmo.

Por que falar disso? Grisha tinha uma esposa que foi transformada em um titã comum. Ao entrar na cidade murada, ele se casa com Karla, a mulher que se tornaria mãe de Eren. Lembram do começo de Shingeki no Kyojin? Quando o Eren e a Mikasa viram sua mãe ser assassinada por um titã? Adivinhem quem era? Isso mesmo, a primeira esposa de Grisha devorou sua segunda esposa para mais tarde ser assassinada pelo filho daquela união.

Vejam bem, eu curto um certo melodrama nos meus mangás. É uma das minhas coisas preferidas. Mas chega um momento que você precisa se conter. Do contrário fica absurdo demais. Shingeki no Kyojin se tornou ridículo.

Esse sentimento só se fortalece com as escolhas narrativas recentes de Isayama. Ele não só optou por usar um timeskip para pularmos alguns anos ao futuro como também mudou o foco dos personagens que conhecemos e aprendemos a amar por quase 100 capítulos para o império além-mar. Caímos de paraquedas em uma guerra mundial contra o Império do Oriente Médio – como se já não tivéssemos paralelos com o mundo real capazes de fazer com que a gente se contorça o suficiente – e conhecemos a próxima geração de guerreiros que querem se tornar os próximos titan-shifters.

Eu consigo entender essa escolha até certo ponto. Dá para argumentar que Shingeki no Kyojin era mais interessante quando tinha os aspectos de uma escola de treinamento. Algumas das cenas mais emocionantes surgiram quando cadetes inexperientes foram colocados em ação cedo demais. Consigo ver algumas similaridades naquelas cenas em que aspirantes a titan-shifter tentam provar o seu valor.

Mas eu tenho uma pergunta que não quer calar sobre isso: por que eu deveria me importar com eles? A essa altura do campeonato, faltando apenas 20% da história pro mangá acabar, por que eu deveria me importar com essas crianças? O que eu quero ver é o Levi, assassino de sangue frio. O que eu quero ver é a Hange, genial e maníaca. O que eu quero ver é a Mikasa, que faz tudo que for necessário para proteger a si mesma e o que é seu. O que eu quero ver é o próprio Eren, mesmo ele sendo o personagem que eu menos gosto entre os sobreviventes!

Com isso, nem preciso dizer que estou bastante receosa. Como o Isayama amarrará tudo? Será que ele conseguirá fazer isso de uma maneira satisfatória? Eu certamente não sei. Mas depois de ter investido tanto tempo e energia nessa obra, só me resta acompanhá-la até o fim e esperar que ele não seja ridículo demais.

Embora eu suspeite que minhas esperanças sejam em vão.

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