Vamos Problematizar? | Fiscais de fandom e ativismo de sofá: problemas e questionamentos

post91EPQoeyhUL._RI_Eu sempre tive vontade de escrever um texto sobre esse assunto, porém eu acabava deixando pra lá justamente por se tratar de algo espinhoso e que provavelmente vai gerar dois tipos de reações: a) ataques por parte dos problematizadores, achando que eu discordo da necessidade de debater ficção e b) ataques por parte dos não-problematizadores, achando que eu estou dando razão a eles e que problematizar é “mimimi”. Bem, acontece que eu não me encaixo em nenhum desses dois grupos e essa polarização na verdade é um dos maiores problemas que temos encontrado nos fandoms ultimamente.

Toda obra é política

Comecemos, então, pelo básico: toda obra é política. Com isso quero dizer que todo conteúdo que consumimos foi pensado por alguém, que por sua vez foi influenciado pelo meio no qual vive, e que de alguma forma reflete sua visão de mundo em suas obras. Isso não quer dizer que todo autor está ativamente tentando passar uma mensagem política, mas sim que suas produções estão carregadas de mensagens e significados que podem ser interpretados de vários modos. O nosso relacionamento com a mídia que consumimos é assim, fundamentalmente interpretativo. Nós recebemos essas mensagens e interpretamos esses significados à nossa maneira, tornando esta relação única. Não há “certos” ou “errados” aqui, apenas interpretações diferentes. Isso nos leva ao primeiro ponto do texto: queerbaiting.

Para quem não está familiarizado com o termo, queerbaiting trata-se de uma jogada midiática realizada em obras de ficção que consiste em mostrar uma tensão sexual e/ou romântica entre personagens do mesmo gênero sem a verdadeira intenção de desenvolver alguma coisa entre eles. É uma maneira de “pescar” o interesse do público LGBT, de modo a aumentar a audiência da obra e ganhar dinheiro com isso. Vejam bem, o queerbaiting existe e é um problema real (inclusive discutimos sobre isso aqui). No entanto, eu sinto que as pessoas têm utilizado esse conceito erroneamente com uma certa frequência e isso tem gerado várias brigas sem sentido nos mais diversos fandoms. Vamos aos exemplos:

 

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Bakugou e Kirishima

Boku no Hero Academia: para além do casal parcialmente estabelecido no canon (Deku e Uraraka), sabemos que os ships mais populares em obras como essa tendem a ser M/M e, nesse caso, podemos citar BakuDeku ou KiriBaku. A quantidade de fanfics, fanarts, zines e tudo mais que são feitas com base nesses casais é absurda e, embora tenham poucas chances de se concretizarem na história, eles são completamente válidos. A graça de shippar algo está na dinâmica que existe entre os personagens em questão e não na probabilidade que o casal tem de se tornar canon. Em outras palavras, se você quiser acreditar que KiriBaku são namoradinhos, você pode! Se você quiser acreditar que eles são apenas melhores amigos, você também pode! Como eu disse, a nossa relação com a mídia é única e isso significa que ambas as interpretações são legítimas! E, pasmem, não tem nada de queerbaiting aqui. Horikoshi Kouhei não está ativamente colocando os personagens em situações de tensão sexual ou romântica, ele não está tentando enganar ninguém, mas a dinâmica dos personagens permite diferentes interpretações e está tudo bem com isso.

 

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Kaneki e Hide

Tokyo Ghoul: Eu já vi muita gente reclamar de TG falando que o relacionamento entre o Kaneki e o Hide era bait, porém eu sinceramente não consigo acreditar que essas pessoas tenham lido o mesmo mangá que eu. A relação Kaneki x Touka é estabelecida desde o início da narrativa, não surge do nada, e o fato de ter se concretizado no final não foi uma surpresa para ninguém. Assim como em BNHA, as interações criadas por Sui Ishida davam margem para outra interpretação da amizade de Kaneki e Hide, mas em momento algum o autor engana seus leitores já que desde o início ele demonstra sua intenção de transformar Kaneki x Touka em canon. Encarar o relacionamento de Kaneki e Hide como romântico é completamente válido, mesmo que no final não tenha se concretizado, contudo isso não quer dizer que ele tenha sido bait.

 

Animes de esporte de maneira geral sofrem com o mesmo problema também justamente por serem protagonizados por personagens masculinos em sua maioria. Esse problema obviamente não está relacionado apenas a ships M/M, mas são os casos mais comuns. Sendo assim, eu acredito que as pessoas estão confundindo queerbaiting com wishful thinking e isso tem feito com que a discussão perca o sentido. Vale lembrar que muito raramente os personagens possuem uma sexualidade estabelecida e portanto discutir se fulano é gay ou hétero é inútil e improdutivo, além de negar outras possibilidades, como a do personagem ser bissexual ou pansexual.

O fandom não é um lugar de ativismo

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Archive of Our Own (AO3)

Às vezes os debates se cruzam, o que não é exatamente um problema –  na verdade é isso que fazemos aqui no Rukh no Teikoku: utilizamos um tipo específico de mídia para ilustrar e discutir questões políticas e sociais. No entanto, é preciso entender que o fandom é um espaço como qualquer outro no qual pessoas que compartilham interesses em comum se unem para apreciar determinadas obras. Ele não foi pensado para ser um espaço de aprendizado e livre de problemas. As pessoas possuem gostos e visões de mundo diferentes e por isso cabe a você personalizar a sua experiência dentro do fandom. Não gosta de conteúdo X? Não interaja com ele. Faça uso das ferramentas que a internet hoje proporciona, como avisos, tags, filtros etc, e vá atrás das coisas que você realmente gosta (o AO3 é um exemplo perfeito disso). É comum encararem o fandom como um safe space, mas ele não é.

 

Por exemplo, se eu não gosto de ship X, eu não vou encher o saco de quem gosta. Se eu não gosto de dinâmica X, eu não vou consumir conteúdo baseado nela. Se eu não concordo com discurso X, eu não vou endossá-lo. Todas essas coisas são passíveis de críticas e eu de fato acredito que devemos fazê-las, especialmente quando se trata de retratações problemáticas de personagens, relacionamentos e afins. Entretanto, xingar o coleguinha que pensa diferente de você não resolve nada; denunciar pessoas pela ficção que elas produzem ou consomem não agrega em nada; o debate morre no momento que passamos a encarar tudo como “nós” e “eles” (a polarização que mencionei no início do texto). A ficção e a realidade são, de fato, coisas distintas e o nosso trabalho é evitar que elas se confundam.

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Tirem as crianças da sala

A mesma lógica de personalizar sua experiência se aplica para conteúdos +18. Não é responsabilidade dos adultos do fandom proteger os menores de idade e impedir que eles tenham acesso a esses conteúdos se eles claramente estão em um espaço destinado ao público +18. Essa responsabilidade é primordialmente dos pais do menor e, além disso, não é como se eles não soubessem o que estão fazendo. Muitas vezes esses menores se infiltram em espaços +18 e sabem que não deveriam estar ali, aí quando eles se deparam com algo potencialmente nocivo, transferem a culpa para quem produziu o conteúdo… ao qual ele não deveria ter acesso em primeiro lugar e cujo autor nem sabia que chegaria a ele.

 

Há coisas que, a meu ver, não são aceitáveis nem na ficção, como pornografia infantil (leia-se lolicon e shotacon). Eu não vou me associar com pessoas que não veem problema com esse tipo de conteúdo. Por outro lado, se a pessoa não ultrapassou esse meu limite, mas gosta de algumas paradas fictícias questionáveis e tem plena consciência de que aquilo seria inaceitável na vida real, quem sou eu para julgá-la? A ficção está aí justamente para extravasarmos, para explorarmos o que do contrário não seria possível. Temos que parar com essa cruzada moral que tem ganhado força recentemente graças à internet e à disseminação de conceitos que muitas vezes as pessoas nem sabem do que se tratam. Às vezes eu quero assistir ou ler alguma coisa que me faça realmente pensar, que me desafie e me provoque, porém às vezes eu só quero ver garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas e está tudo bem. Os meus gostos não me fazem melhor ou pior do que ninguém.

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MÃOS AO ALTO! FANDOM POLICE HERE!

De vez em quando surgem algumas polêmicas no Twitter e no Tumblr sobre obras, personagens ou pessoas “problemáticas”. Resumidamente, divulgam que se você gosta de obra X, por exemplo, que contém alguma coisa questionável em sua narrativa, você é “problemático”. Se você gosta de personagem X, que fez algo repreensível (e mesmo que você reconheça isso), você o apoia e é “problemático”. É uma lógica bastante burra e que joga pela janela algo muito importante que mais pessoas deveriam exercer: o pensamento crítico. Já falamos sobre isso diversas vezes aqui, mas você não é a mídia que você consome e não dá para colocar tudo e todos numa caixinha de “problemáticos” e “não-problemáticos”. Uma crítica à mídia que você consome não é uma crítica a você. Eu garanto que a experiência de todo mundo será infinitamente melhor quando todos entenderem isso.

 

Libertem-se, caras. Os fiscais de fandom não são reais – ninguém vai invadir a sua casa e apontar o dedo na sua cara porque você de alguma forma feriu seus princípios de pureza moral.

Leitura complementar: Tradução: Parem de perguntar “Isso é feminista?”

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