Resenha | Homofobia internalizada, relacionamentos conflituosos e o processo de autoaceitação em Umibe no Étranger

Umibe no Étranger é um mangá de volume único escrito e ilustrado por Kii Kanna. Originalmente serializada em 2013 na revista On Blue da editora Shodensha, a obra recebeu uma adaptação para filme no ano passado. Agora, seis meses depois da sua estreia nos cinemas japoneses, Umibe no Étranger finalmente teve o seu BD/DVD lançado e pode ser conferido por um público maior.

Animado pelo Studio Hibari e dirigido por Oohashi Akiyo, Umibe no Étranger se passa em Okinawa e conta a história de Hashimoto Shun, um rapaz gay cujo sonho é se tornar escritor, e Chibana Mio, um colegial quieto que perdera ambos os pais e frequentemente era visto sentado num banco da praia que ficava perto da casa de Shun até tarde da noite. Aos poucos os garotos começam a se aproximar, porém Mio repentinamente decide deixar a ilha para continuar os seus estudos e só reaparece três anos depois, agora determinado a ficar com Shun. Será que os dois finalmente serão capazes de dar um passo à frente juntos?

Se eu tivesse que resumir Umibe no Étranger em poucas palavras, eu diria que é um filme muito bonito e doloroso ao mesmo tempo. Isto porque a autora explora uma gama de dificuldades enfrentadas por grande parte da comunidade LGBT, que nem sempre encontra o acolhimento que seus personagens tanto buscaram. Dentre os diversos assuntos que a autora toca – com um imenso cuidado e delicadeza, diga-se de passagem –, eu gostaria de comentar sobre três: a homofobia internalizada de Shun, os relacionamentos conflituosos que ele tem com a família e o próprio Mio, e o processo pelo qual ele teve que passar para finalmente aceitar a sua homossexualidade.

A homofobia internalizada, fruto da heterossexualidade compulsória e da pressão esmagadora que a sociedade coloca sobre os indivíduos que fogem à norma, é a primeira dificuldade enfrentada por muitos LGBTs. Mesmo quando temos a noção de que gostamos de pessoas do mesmo gênero, devido ao ambiente homofóbico no qual muitos de nós foram criados, não acreditamos que somos normais ou que um dia sejamos capazes ou sequer merecedores de encontrar um amor verdadeiro e uma felicidade genuína. Shun é um retrato perfeito disso: após inúmeras represálias sociais, desde comentários homofóbicos pelas suas costas quando criança às paixões sem futuro na adolescência e às expectativas de uma família patriarcal na vida adulta, ele se enfiou tão fundo no armário que não consegue se imaginar saindo dele. A sua relutância em ficar com Mio vem daí – Shun não só acha que estar com ele apenas fará com que Mio seja infeliz como também sente ódio e repulsa de si mesmo (“sexo com outro homem não é nojento?”). Felizmente, Mio está lá para provar que não há nada de estranho ou repulsivo em querer transar com alguém que você gosta e, mesmo que também goste de mulheres, é por Shun que ele se apaixonou e é com ele que Mio quer ficar. Assim, lentamente, Shun começa a se desfazer de suas amarras, tentando deixar a sua homofobia internalizada para trás.

Quase todos os relacionamentos de Umibe no Étranger são conflituosos. Embora tenhamos uma luz no fim do túnel com Eri e sua namorada (que mesmo assim discutem às vezes) e com a avó que não parece querer se meter na vida dos netos, estes são pouco explorados. O foco mesmo recai sobre os relacionamentos de Shun: com a família, com sua ex-noiva Sakurako e com o já mencionado Mio. A família de Shun parece retratar o típico lar japonês onde o homem é o chefe e se espera que tanto ele quanto sua esposa cumpram com os papéis de gênero preestabelecidos pela sociedade patriarcal. Assim, os pais de Shun têm a expectativa de que ele se case com uma jovem de uma família importante e procrie, o que não acontece quando ele decide revelar que é gay no dia da sua cerimônia de casamento, consequentemente sendo deserdado pela família. Shun vai embora sem a intenção de um dia retornar, porém sua determinação é colocada em cheque quando anos depois ele descobre que seu pai não está bem de saúde e Mio, que sofreu com a perda de ambos os pais, insiste que Shun vá visitá-lo. Mesmo contrariado, Shun resolve voltar para casa, mas desta vez ao lado de Mio. 

Estar na posição de Shun é muito doloroso porque ele sabe que estará retornando para um lugar hostil. A ideia de que temos que nos importar e amar um familiar acima de qualquer coisa só porque compartilhamos o mesmo sangue pode ser extremamente nociva em algumas situações. Ainda assim, viver com o arrependimento do que “poderia ser” se ele tivesse se esforçado para ser aceito, tentado mudar a visão dos seus pais também destrói uma pessoa por dentro. Logo, independentemente da decisão que ele tomasse, não caberia a nós julgá-lo. Tudo o que podemos fazer agora é torcer pelo melhor.

Para aceitar a sua homossexualidade, Shun precisou da ajuda daqueles que estavam ao seu redor. Não bastava saber que ele gostava de homens: ele tinha que entender que era possível ser acolhido por quem realmente é (pela sua avó, pela Eri e a namorada dela, pelo Mio e até mesmo pela Sakurako, que estava disposta a se casar com ele sabendo de sua condição e que jamais seria amada da mesma forma por ele só para protegê-lo das represálias sociais), que havia futuro para ele e Mio (mesmo que não livre de preconceitos) e que realmente estava tudo bem em amar alguém do mesmo gênero. Sentir-se acolhido é o primeiro passo para que qualquer pessoa LGBT possa viver como quem realmente é. Por isso devemos sempre nos questionar se estamos contribuindo para a criação de um ambiente onde as pessoas podem abertamente amar quem amam e ser felizes e, caso a resposta seja negativa, devemos pensar no que podemos fazer para torná-lo realidade.

Para finalizar, gostaria de reiterar que o filme é realmente muito bonito, não só pela mensagem que passa, mas também pela parte técnica. Em comparação com o mangá, algumas cenas foram rearranjadas e outras cortadas, porém nada que mudasse radicalmente o enredo. Só é uma pena que o início do filme tenha sido tão corrido e que eles não tenham adaptado a conversa de Mio com Eri pelo telefone, que foi importante para ele entender o que verdadeiramente sentia por Shun. Apesar disso, o filme acertadamente adicionou uma personagem transfeminina que cumpriu mais ou menos o mesmo papel narrativo que Eri naquela conversa, e é sempre legal ver personagens que desafiam as construções sociais de gênero sendo tratadas com a maior naturalidade do mundo.

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Alerto para possíveis gatilhos (homofobia interna e externa, conflitos familiares), mas fica aqui a minha recomendação. Numa escala de 0 a 10, Umibe no Étranger é um sólido 8.

 

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