Por que Kimetsu no Yaiba fez tanto sucesso? Mikawa Kaori, editora de Nodame Cantabile, explica

Muitas pessoas após lerem o mangá ou assistirem ao anime de Kimetsu no Yaiba se perguntam por que a obra fez tanto sucesso, com números de deixar qualquer um de queixo caído, uma vez que sua história não oferece nada de revolucionário quando comparada a outras obras de battle shounen. Numa tentativa de explicar este fenômeno cultural chamado Kimetsu no Yaiba, Mikawa Kaori, professora da Universidade Kyoto Seika, publicou um artigo no site Nippon.com intitulado “Demon Slayer: A Cultural Phenomenon for Pandemic Times” (Demon Slayer: um fenômeno cultural em tempos de pandemia, em tradução livre).

Além de ministrar aulas, Kaori trabalhou como editora da revista Young Rosé da Kadokawa logo após se formar na Universidade Rikkyō e, em 1995, tornou-se independente. Conhecida por ter editado mangás populares como Nodame Cantabile, desde 2017 Kaori também tem planejado e editado conteúdos digitais sobre mangás para a Coreia e o Japão. Abaixo você confere na íntegra a tradução do artigo originalmente publicado em 04 de fevereiro de 2021:

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Demon Slayer: um fenômeno cultural em tempos de pandemia

2020, o ano do COVID-19, encerrou-se com a surpreendente notícia de que, em 28 de dezembro, Kimetsu no Yaiba Movie: Mugen Ressha-hen havia atingido 32,48 bilhões de ienes em bilheteria doméstica, ultrapassando Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro) do Studio Ghibli e se tornando o filme nacional de maior bilheteria da história do Japão. O último volume do mangá de Kimetsu no Yaiba foi publicado em 04 de dezembro, quando a série como um todo tinha mais de 120 milhões de cópias em circulação. No dia do lançamento do volume final, muitas livrarias nas principais cidades relataram que os fãs faziam filas do lado de fora para obterem seus exemplares.

O fenômeno cultural chamado Kimetsu no Yaiba foi completamente inesperado. Quando o anime foi ao ar pela primeira vez em abril de 2019, o título já era enormemente popular entre o principal público fã de mangás. O capítulo final da série foi publicado na revista Weekly Shōnen Jump em 18 de maio, e as redes sociais foram rapidamente incendiadas com discussões sobre a forma como ele terminou, especialmente porque estava no auge de sua popularidade. Os rumores sobre a série começaram a se espalhar como lendas urbanas, incluindo a real revelação de que a autora, Gotōge Koyoharu, é uma mulher.

Não muito tempo depois da estreia do filme em outubro de 2020, porém, comecei a notar que a discussão sobre ele havia chegado na mídia mainstream, indicando que sua popularidade tinha se tornado muito mais disseminada. Para alguém que faz parte do cenário de mídia e mangás, aquilo foi um choque pra mim, como se um balão de brinquedo que eu segurava em minhas mãos de repente se transformasse em uma enorme aeronave e voasse.

Desvendando os segredos de um megahit

O que há em Kimetsu no Yaiba que tornou essa popularidade possível?

É raro um mangá se tornar um fenômeno cultural por si só, já que na maioria dos casos isto é o resultado da distribuição transmidiática, especialmente via adaptação de anime para a televisão. Em geral, o fenômeno Kimetsu no Yaiba é um exemplo perfeito de como se desenvolve uma franquia transmidiática, com o mangá original sendo adaptado para um anime de televisão, e então progredindo para o cinema, e assim se transformando em sua própria marca. Esse desenvolvimento de mangá para anime de televisão e depois para o cinema é um padrão comum e não se restringe nem um pouco a Kimetsu no Yaiba.

Então, será que o segredo para esse status de megahit pode ser encontrado em seu conteúdo – na história, nos personagens ou em sua visão de mundo?

Kimetsu no Yaiba é uma história de aventura destinada a um público jovem e masculino, e de forma geral trata de temas de crescimento e amadurecimento. Para resumir, o personagem principal é um menino chamado Kamado Tanjirō. Ele perde a maior parte de sua família em um ataque de demônio, exceto sua irmã mais nova, Nezuko, que se transforma em demônio. Ele então se junta a uma organização, a Demon Slayer Corps (Esquadrão de Exterminadores de Demônios), para continuar lutando contra o inimigo. Tanjirō é um típico protagonista de mangá de luta, que depende de seu próprio potencial inato em vez de quaisquer dons naturais para superar obstáculos. Ele é dotado de um olfato muito apurado, o que lhe permite detectar até as emoções e movimentos dos outros, embora este dom não seja particularmente útil durante as batalhas.

A história coloca os dois extremos, as forças da justiça e as do mal, um contra o outro em conflito direto. O primeiro é representado pela Demon Slayer Corps, cujo objetivo é eliminar as criaturas diabólicas. O segundo é composto pelos Twelve Kizuki (Os Doze Kizuki), um grupo de humanos transformados em demônios e então organizados em uma espécie de exército pelo “rei” demônio Kibutsuji Muzan. Ela segue as tropes comuns dos mangás de luta para meninos, incluindo o crescimento de uma relação de confiança com os membros mais velhos, amizades entre companheiros, e a irmã mais nova que pode compensar as deficiências do personagem principal, neste caso porque sua transformação demoníaca lhe dá grande poder. Como resultado, os personagens, a visão de mundo e a narrativa são relativamente diretos e fáceis de entender. Em outras palavras, é perfeitamente voltado para o sucesso comercial. Naturalmente, Kimetsu no Yaiba apresenta um sabor único, mas todo trabalho tem seu toque especial. Ao compará-lo com outras franquias populares, não consigo ver nenhum elemento particularmente incomum que o destaque. Então, voltando à nossa pergunta, o que o tornou um sucesso tão fenomenal? Acredito que a resposta possa ser encontrada na estratégia usada para manter as vendas após o fim da série e uma empatia especial encontrada no público em geral, cujos valores foram forçados a mudar na pandemia. Portanto, vamos examinar essas duas facetas.

Uma escolha estrutural

Quando olhamos para a estrutura narrativa dos mangás de luta, existem dois padrões básicos: a estrutura de escalada, que é episódica, na qual os personagens devem ir “subindo de nível”, e a estrutura de “cálculo retroativo”, quando há um certo objetivo final em mente e elementos da história são montados para que o protagonista se mova em sua direção. A estrutura de “subir de nível” apresenta protagonistas que avançam de uma batalha ou desafio para outro, ficando mais fortes e derrotando oponentes cada vez mais poderosos em uma história sem fim aparente, como exemplificado por títulos como One Piece e Dragon Ball. A narrativa de “cálculo retroativo”, no entanto, usa a conclusão de eventos elaboradamente estruturados e prenunciados à medida em que se aproxima de seu fim fixo em uma serialização limitada, como Assassination Classroom ou Fullmetal Alchemist. Kimetsu no Yaiba é do segundo tipo, e mesmo com 23 volumes publicados, a série é relativamente curta para o padrão de mangás de aventura/luta.

Tem se chamado muito a atenção para o fato de que o mangá de Kimetsu no Yaiba terminou no auge de sua popularidade, mas é padrão para mangás desse tipo encerrarem sua publicação em cerca de 25 volumes. Em vez de terminar intencionalmente no auge de sua popularidade, parece que o plano era na verdade aumentar ainda mais a popularidade após o seu fim. Prolongar a serialização certamente levaria à venda de mais volumes no geral. Mas levar uma história desse tipo adiante com batalhas cada vez mais intensas dilui a catarse da conclusão prenunciada e, portanto, reduz o apelo. Seria fatal para a história. Sem a estratégia de prolongar a história para vender mais volumes, então, os editores teriam que contar com manter a popularidade após o fim da história para continuar vendendo-os. Como eles fizeram isso?

A tristeza compartilhada pelo fim

Passaram-se vários anos entre a primeira aparição do mangá, na edição de 16 de fevereiro de 2016 da revista Weekly Shōnen Jump, e seu grande estouro com a primeira temporada do anime na televisão, que foi de abril a setembro de 2019. Isso quer dizer que havia uma diferença significativa nas etapas da história, como mostra o décimo sexto volume do mangá, que foi lançado em julho enquanto a primeira temporada ainda estava no ar.

[SPOILER] Nesse volume, o chefe da família Ubuyashiki e da Demon Slayer Corps explode sua própria casa, sacrificando-se junto com sua esposa e filha, a fim de armar uma armadilha para o “rei” demônio Kibutsuji Muzan [FIM DO SPOILER]. O evento marcou um início claro e repentino para a contagem regressiva final da história. Fãs que começaram a assistir o anime e depois decidiram maratonar os volumes publicados chegaram à décima sexta edição e ficaram obviamente chocados com o fato de a história já parecer ter acabado, e muitas pessoas recorreram às redes sociais para compartilhar esse choque. Foi em outubro de 2019, após esse evento e a experiência compartilhada dele nas redes sociais, que o fenômeno do esgotamento de Kimetsu no Yaiba começou com o lançamento do volume 17. A propósito, este volume apresenta um dos personagens principais morrendo na batalha contra um demônio. Conforme os personagens queridos partiam e a história começava a se aproximar do fim, os leitores começaram a se reunir nas redes sociais e em outros lugares para participar da contagem regressiva final juntos.

A serialização da revista terminou em maio de 2020, mas o cronograma de publicação dos volumes ficou muito atrasado. A vigésima edição do mangá foi publicada em 13 de maio, apenas cinco dias antes do fim da serialização na revista. O penúltimo volume, o número 22, foi colocado à venda em 02 de outubro, e o filme foi lançado apenas duas semanas depois. O vigésimo terceiro e último volume não foi lançado até o dia 03 de dezembro, de forma que a contagem regressiva se prolongou cada vez mais para aqueles que estavam seguindo a série pelos volumes, em vez de na revista. Isso deixou cerca de dois meses para os fãs curtirem a tristeza compartilhada pelo final inevitável, além de aumentar sua expectativa.

Então, e se a série durasse mais? Os fãs teriam sido tão apaixonados se a história tivesse sido diluída e estendida para que se pudesse capitalizar na popularidade do anime? Os resultados parecem argumentar contra isso. A estratégia de permitir que os leitores compartilhassem publicamente o final prolongado atraiu novos leitores para se juntarem à contagem regressiva, aumentando assim as vendas com sucesso, e a curta duração da história em si tornou-se parte de sua marca.

Os espíritos remanescentes e aqueles que seguem em frente

Assim, os criadores da série fizeram uso estratégico do final para impulsionar sua popularidade e manter as vendas. Mas Kimetsu no Yaiba é inegavelmente uma história macabra. As pessoas são atacadas e massacradas impiedosamente por demônios irracionais, e os membros do Demon Slayer Corps morrem um após o outro. O que em tal história poderia inspirar empatia?

Há momentos ao longo da história em que o protagonista e outros personagens parecem prestes a desistir da vida, e então os espíritos de familiares e amigos mortos pelos demônios voltam, descendo ao inconsciente para inspirá-los. Em outras palavras, os falecidos ainda “vivem”, permanecendo ao nosso lado para nos ajudar mesmo após a morte. A ideia de os mortos ficarem por perto é um elemento central dos temas de conexão e herança da história. De fato, acredito que a história argumenta que, enquanto alguém continuar carregando nossas memórias e ideais, nossa vida nunca poderá terminar de verdade. É uma chance de viver eternamente. Isso também significa que, embora haja alguém para levar adiante nossos ideais, o autossacrifício é, na verdade, um ato de devoção – a uma causa ou aos que estão ao nosso redor. A devoção desse sacrifício pode, então, inspirar mais devoção naqueles que permanecem e herdam nossos ideais, e podemos tomar o uso da história dos “espíritos remanescentes” como um símbolo dessa herança de devoção.

Os “espíritos remanescentes” também aparecem para aqueles que carregam o triste destino de se tornarem demônios. Demônios aos quais os “espíritos remanescentes” retornam têm suas memórias e humanidade restauradas antes de morrer, e assim oferecem ao leitor um vislumbre da salvação, mostrando que mesmo o pior dos destinos – ter a razão arrancada e ser transformado em um demônio – não é completamente vazio de esperança.

O sentimento-chave nesta história é apenas este: proteger aqueles com quem nos importamos. Todos compartilham esse sentimento e, ao mesmo tempo em que ele direciona os personagens dentro da história, ajuda a manter os leitores envolvidos emocionalmente. Eu acredito que é esse tipo de sentimento compartilhado, a empatia que ele criou, que levou Kimetsu no Yaiba a se tornar tão popular, mesmo entre aqueles que normalmente não consomem mangá ou anime.

Há uma fala memorável de Kibutsuji Muzan ao personagem principal, Kamado Tanjirō. “Pense que ser morto por mim é como morrer em um desastre natural.” Ler uma fala como essa evoca certa reação nos leitores. Todos nós testemunhamos grandes terremotos. Temos visto inundações e tufões no verão e casas desabando sob a neve no inverno e, claro, vivemos dia após dia com a pandemia do COVID-19. Todos nós começamos a ver como os seres humanos são fracos e, à medida em que vivemos vidas de autocontenção sem fim na pandemia, nossos valores começaram a mudar.

Ser forçado a se afastar das multidões da cidade fez com que muitos de nós nos sentíssemos solitários e surpresos ao perceber que participar de todos aqueles eventos e atividades era uma parte importante do que presumimos ser uma “vida plena”. Eu imagino que todos tiveram que fazer um balanço do que é realmente importante na vida. Onde encontramos a satisfação emocional, sem fim à vista para tudo isso? Talvez a resposta esteja em entender o que procuramos ao simpatizar com Tanjirō e seus amigos enquanto lutavam contra os demônios, símbolos da irracionalidade encarnada.

Perdemos muitas das coisas que nos guiaram ao longo da vida, e agora devemos construir novos valores em um novo normal. Esse pode ser o momento perfeito para uma história de horror e devoção.

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